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Estudo do Pnud aponta que jovens negros serão chave para o futuro do Brasil

Redação I Correio Espirito Santo Por Redação I Correio Espirito Santo
Terça-feira, 26 de Maio de 2026
Em Economia
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Futuro do Brasil depende de jovens negros, aponta estudo do Pnud

📷 Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

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Vila Velha (ES) – Um estudo do Pnud Brasil, divulgado nesta terça-feira (26), sustenta que o futuro do país depende diretamente de jovens negros. A avaliação aparece em uma fala da coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil, Betina Barbosa, ao comentar os dados do Radar IDHM, pesquisa que revela desigualdades persistentes no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal.

“Quem sustentará o Brasil do futuro é um jovem negro, não é um jovem branco”, disse Betina Barbosa. Para ela, a ideia não é discursiva, nem baseada em romantismo. O argumento central é prático, ligado à viabilidade econômica e social do país.

“É fundamental colocar essas pessoas dentro da equação do desenvolvimento. Não por romantismo, mas pela viabilidade do país. Sem colocar essas pessoas nessa equação do desenvolvimento, o país não se viabiliza”, afirmou a coordenadora em entrevista coletiva em Brasília, quando antecipou os dados à imprensa.

O Radar IDHM traz informações do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) e mostra como o Brasil evoluiu, mas também como a distância entre grupos ainda se mantém. A publicação usa uma série que começou em 2012 e vai até 2024. O recorte por cor evidencia um padrão: a população branca, em média, já teria feito a transição demográfica, enquanto a população negra segue com indicadores em patamar inferior.

Os números ilustram essa diferença. O IDHM dos brancos subiu de 0,804 em 2012 para 0,851 em 2024. No mesmo período, o IDHM dos negros saiu de 0,694 para 0,774. A escala do Pnud para classificar desenvolvimento humano vai de 0 a 1 e divide os resultados em categorias como muito alto, acima de 0,800; alto, de 0,700 a 0,799; médio, de 0,555 a 0,699; e baixo, abaixo de 0,555.

Quando o Pnud iniciou os cálculos do índice, há 30 anos, o Brasil era um país com IDHM baixo. No conjunto, em 2024, o país alcançou IDHM de 0,805, ante 0,744 em 2012. Com esse salto, o Brasil ingressou pela primeira vez no grupo de países com desenvolvimento humano muito alto.

Mesmo com a melhora geral, Betina Barbosa sustenta que o tamanho do fosso continua semelhante. “As desigualdades brasileiras ainda são regionais, mas o que os dados mostram é que todos nós melhoramos, melhoramos os brancos e melhoramos os negros, mas o tamanho do fosso é o mesmo. Em algum momento, os ganhos de melhoria para os brancos serão marginais. Então, como é que eu vou melhorar o país? Com os ganhos dos negros, que são a maioria da população”, explicou.

Na leitura dela, a inclusão não é só uma questão de justiça social, mas de desenho de política pública. Ela citou o peso demográfico da população negra em regiões específicas: “Eu estou falando de 80% da população na região Norte que é negra, e de 76% na região Nordeste. Se eu tenho políticas públicas voltadas para esses segmentos que ainda estão à margem, eu diminuo as desigualdades regionais”, afirmou.

Em outro trecho da entrevista, Betina voltou ao tema da “equação” do desenvolvimento. “Não é romantismo, não se trata de ideologia. Se trata de uma equação matemática”, disse. A coordenadora associou o debate ao envelhecimento da população produtiva, afirmando que não há jovens suficientes para substituí-los, e que os jovens existentes são majoritariamente negros, homens e mulheres.

“E os jovens que têm são jovens negros, sejam eles homens ou mulheres negras e que precisam, na verdade, dar conta da equação do desenvolvimento brasileiro”, acrescentou.

A especialista também mencionou um novo paradoxo que exigiria um ciclo de desenvolvimento diferente. “A elite branca do Brasil, e esse é um dos debates sobre os valores da democracia, vai precisar dialogar com um conjunto outro de brasileiros que não são brancos, para que o país possa existir como um país e ancorado nesse valor da democracia”, afirmou.

O próximo ciclo, segundo Betina Barbosa, deveria se concentrar em capacidades avançadas. Ela relacionou essa mudança ao cotidiano dos jovens e ao avanço das tecnologias. “Os jovens estão com os dois pés nas capacidades avançadas e querendo mais. Telefone celular, isso já é um fato. O que é o mundo digital agora para eles? Quais são as novas ferramentas? O que significa medicina de alta complexidade? Uma educação com letramento digital?”, questionou.

O chefe do Pnud no Brasil, Claudio Providas, também comentou as pressões e demandas das novas gerações. Para ele, há novos pontos de estresse, mas também necessidades novas. “Como fechar essa brecha entre as capacidades dos brasileiros do presente e do futuro e o mercado do futuro?”, perguntou, lembrando que o Brasil está entrando em uma economia globalizada.

Providas continuou: “Novas gerações tem novas expectativas. Os caminhos do passado não necessariamente vão a dar conta das soluções do futuro”. A frase resume a preocupação do Pnud com a transição entre o que funcionou antes e o que será exigido daqui para frente.

Na dimensão de renda, o estudo aponta que o crescimento do IDHM da população negra, entre 2012 e 2024, foi impulsionado por educação. O resultado aparece associado a políticas públicas bem sucedidas, além do avanço em saúde. O índice considera parâmetros de saúde e longevidade, educação e geração de renda, com desagregação por cor, negro e branco, e por sexo, mulher e homem.

Betina Barbosa apontou que o desafio para o próximo ciclo está nas políticas de geração de renda. Para ela, esse aspecto não pode ficar restrito a programas sociais. “Qual é a base da economia do futuro do Brasil? De que forma nós vamos organizar a economia monetária brasileira para que ela seja inclusiva?”, questionou, argumentando que é preciso uma política de investimentos voltada para esse objetivo.

O debate também passou por orçamento e compromissos fiscais. “Qual vai ser o pacto em torno da capacidade de investimento? Temos uma parte do orçamento que está sob responsabilidade da classe política brasileira no Congresso. Uma outra parte significativa que está comprometido com os compromissos de dívida”, lembrou Betina Barbosa.

O Radar IDHM inclui ainda a análise do IDHM ajustado à Desigualdade, o IDHMAD. Em 2012, esse indicador situava o Brasil como um país de baixo desenvolvimento humano, em 0,566. Uma década depois, em 2024, o IDHMAD posiciona o país no patamar de médio desenvolvimento humano, em 0,641.

O dado de 2024 serve para mostrar o que a média de 0,805 oculta. O cálculo incorpora desigualdades dentro de cada dimensão do IDHM, o que torna mais visível a distância que separa grupos e realidades. Na avaliação de Claudio Providas, o número exige atenção porque evidencia que uma mulher negra brasileira ainda vive em um contexto diferente do de um homem branco brasileiro.

“Não metaforicamente, mas estatisticamente. Quando levamos em conta a renda do trabalho, as mulheres permanecem na faixa média do desenvolvimento humano, enquanto os homens estão na faixa muito alta. Essa diferença persiste há 13 anos”, disse ele.

Providas citou também que não há espaço para conformismo. Para ele, as boas notícias existem e apontam que a trajetória pode ser alterada com vontade política e compromisso social. “Os estados do Nordeste cresceram mais rapidamente nesse período, as regiões metropolitanas que convergiram, a população negra que avançou a um ritmo quase duas vezes maior que a população branca. A questão que se coloca hoje para o Brasil não é se ele pode crescer, a questão é quem terá um lugar nesse crescimento do futuro”, reforçou.

O estudo traz ainda comparações diretas. O IDHM dos homens é 0,802; já o IDHM das mulheres é mais baixo, 0,798. Quando o recorte é por cor, o IDH dos brancos fica acima da média brasileira, chegando a 0,851. O IDH dos negros, 0,774, aparece como mais baixo que o das mulheres.

Betina Barbosa e Claudio Providas conectam esses indicadores a diferenças concretas de vida. O texto do Radar IDHM aponta que uma pessoa branca que nasce no Rio Grande do Sul vive, em média, até 81 anos. Já uma pessoa negra, que nasce no Amapá, vive sete anos a menos, até 73 anos.

As disparidades também aparecem na renda. O estudo registra que, se uma pessoa branca nasceu no Distrito Federal, a renda média é de R$ 1.987. Se a pessoa é negra e nasceu no Maranhão, a renda média é de R$ 440,66.

Os resultados apresentados no Radar IDHM foram calculados com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em parceria com a equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro.

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