Guarulhos (SP) – O Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo, tornou-se palco de um relato angustiante na última segunda-feira (22). Em meio ao julgamento que apura as circunstâncias da morte do empresário e delator Vinicius Gritzbach, a viúva de Celso Araujo Sampaio de Novais tomou o microfone para expor as sequelas de uma tragédia que atravessou vidas aleatórias. Celso, que trabalhava como motorista de aplicativo, foi atingido por disparos enquanto passava pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos em 8 de novembro de 2024. Ele não era o alvo, mas a violência da execução o alcançou de forma definitiva.
A mulher, cujo nome foi mantido sob sigilo, descreveu a desestruturação completa de sua rotina. Antes do crime, a renda do marido era o pilar que sustentava as contas básicas da família. Hoje, a sobrevivência tornou-se um exercício diário de privações. Ela narrou a dificuldade para quitar o aluguel e até para adquirir itens essenciais, como os óculos do filho. A dor, contudo, ganha contornos mais cruéis quando precisa responder ao questionamento constante da criança: “Por que tiraram o meu pai de mim?”. Na plateia, Aparecida Camilo, mãe de Celso, acompanhava o depoimento com lágrimas, vivendo o luto pela perda de um filho aos 65 anos.
A dinâmica do atentado foi devastadora. Celso foi alvejado no rim e teve órgãos vitais, como o fígado, atingidos por estilhaços. Ele não resistiu aos ferimentos e faleceu no dia seguinte ao ataque. Um perito criminal ouvido no mesmo dia confirmou a brutalidade da ação: ao menos 27 projéteis foram disparados durante a execução de Gritzbach, que na época colaborava com o Ministério Público de São Paulo por meio de uma delação premiada envolvendo o PCC e denúncias de corrupção policial.
No banco dos réus, três policiais militares enfrentam a acusação de duplo homicídio: o tenente Fernando Genauro da Silva, o cabo Denis Antônio Martins e o soldado Ruan Silva Rodrigues. Atualmente custodiados no Presídio Militar Romão Gomes, eles são apontados como os responsáveis pela logística e execução do plano. A defesa alega inocência e sustenta que o inquérito teria sido manipulado, argumento que será confrontado ao longo dos cinco dias previstos para o júri.
Por razões de segurança e trauma, as primeiras testemunhas de acusação — entre elas uma mulher ferida por estilhaços enquanto esperava um transporte e um funcionário do aeroporto atingido na mão — solicitaram que os réus não estivessem presentes na sala durante suas falas. Eles só puderam ingressar no recinto após essa etapa.
O destino dos três policiais agora repousa nas mãos de sete jurados — três mulheres e quatro homens. O processo segue com a audição das dez testemunhas de acusação e do rol indicado pela defesa, culminando nos debates finais. Só após esse rito a decisão será selada: o veredito dirá se a cadeia de eventos iniciada sob o fogo dos fuzis no aeroporto resultará em condenação ou absolvição.









