Brasília (DF) – Oficiais de Justiça enfrentam dificuldades há mais de um mês para intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em Brasília. O parlamentar é alvo de uma determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, que busca esclarecimentos sobre o destino de emendas parlamentares ligadas à produção do filme Dark Horse, uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde o final de março, o oficial encarregado esteve no gabinete do deputado em diversas ocasiões, mas foi informado por assessores que Frias estaria em São Paulo cumprindo agendas de campanha, sem que houvesse qualquer disposição da equipe em detalhar o paradeiro do congressista.
O processo no STF nasceu de uma denúncia apresentada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Ela aponta que Frias teria destinado ao menos R$ 2 milhões em verbas públicas para a Academia Nacional de Cultura, presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama. O ponto central da suspeita é que a mesma empresária comanda a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro, que tem estreia prevista para setembro, justamente nas semanas que antecedem o primeiro turno das eleições. Tabata argumenta que a estrutura de empresas e ONGs sob o mesmo comando facilitaria o uso de dinheiro público para financiar produções de cunho ideológico.
A defesa dos parlamentares
Outros deputados citados na denúncia, Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS), atenderam às intimações de Flávio Dino. Ambos confirmaram ter destinado verbas para projetos culturais, mas negaram qualquer irregularidade. Pollon admitiu o envio de R$ 1 milhão para a Secretaria de Cultura de São Paulo, visando uma série documental, mas garantiu que o projeto não avançou por incapacidade técnica da entidade beneficiária. Segundo o deputado, o valor foi integralmente redirecionado para o Hospital de Amor, em Barretos, afastando qualquer desvio de finalidade. Bia Kicis adotou postura semelhante, classificando a acusação de Tabata como maldosa e técnica e juridicamente equivocada.
A deputada enfatizou que sua emenda de R$ 150 mil não tem conexão com o filme Dark Horse e defendeu o mérito social de suas indicações orçamentárias. Ela argumenta que o Supremo não deveria criminalizar decisões políticas pautadas no fomento à economia criativa e à história nacional. Curiosamente, a própria Advocacia da Câmara dos Deputados, instada por Dino a se manifestar, indicou que não encontrou irregularidades processuais nas emendas específicas de Mário Frias apontadas na representação inicial.
Bastidores e a relação com o Banco Master
O caso ganhou novos contornos nesta quarta-feira, após revelações do site The Intercept Brasil sobre o envolvimento do senador Flávio Bolsonaro na busca por recursos para a produção. Áudios obtidos indicam que o parlamentar teria solicitado ao banqueiro Daniel Vorcaro o aporte de R$ 134 milhões para o filme. As conversas, ocorridas pouco antes da prisão de Vorcaro na Operação Compliance Zero, mostram Flávio Bolsonaro preocupado com o atraso nos pagamentos da equipe técnica e o impacto negativo que a falta de verba causaria à imagem do projeto.
Em resposta, Mário Frias negou veementemente qualquer participação societária do senador na produtora Go Up Entertainment ou no filme. O deputado insistiu que Dark Horse é uma obra financiada por capital privado e que, mesmo se houvesse aporte do banco, tratar-se-ia de uma relação comercial legítima entre entes privados. Frias defendeu o custo da produção, comparando-o a outros sucessos do cinema nacional, e reforçou que o filme, com padrão hollywoodiano, é um negócio viável que reflete a trajetória do maior líder político brasileiro deste século. A tensão, contudo, permanece, com o STF ainda aguardando a manifestação formal de Frias sobre o uso das emendas.










