Lima, Peru – Uma cadeira presidencial que parece queimar as mãos de quem nela se senta. No próximo domingo, dia 7, o Peru tenta mais uma vez encontrar estabilidade ao escolher o seu nono governante em apenas dez anos. Uma população de 34 milhões de habitantes assiste a um segundo turno rachado, que definirá os rumos do país de 2026 a 2031. De um lado, Keiko Fujimori carrega o espólio político da direita tradicional; de outro, Roberto Sánchez Palomino tenta consolidar o fôlego da esquerda.
Para chegar até aqui, o país enfrentou um primeiro turno caótico. Foram 35 concorrentes na cédula e uma apuração que se arrastou por mais de um mês para apontar os dois finalistas. Keiko liderou a primeira rodada com 17,1% dos votos válidos, enquanto Sánchez assegurou sua vaga com 12,0%. Apesar da vantagem numérica, a vitória da candidata da direita está longe de ser uma garantia. Ela carrega o fantasma de três derrotas consecutivas no segundo turno, ocorridas em 2011, 2016 e 2021.
Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000, Keiko personifica uma herança ambígua. Ao mesmo tempo que herda a base fiel do pai, ela atrai toda a rejeição acumulada pela gestão dele, marcada por abusos de direitos humanos e pelo escândalo das esterilizações forçadas de mulheres indígenas. Em sua campanha, ela prega uma guinada em direção à Casa Branca sob Donald Trump. A estratégia tenta conter a presença robusta da China na economia local, que recentemente inaugurou o monumental Porto de Chancay para escoar a produção sul-americana ao mercado asiático.
Sánchez caminha em direção oposta. Psicólogo e deputado pelo partido Juntos Pelo Peru, ele constrói sua base de apoio reivindicando o legado de Pedro Castillo, o ex-presidente que acabou destituído e preso em 2021 após tentar um golpe de Estado ao dissolver o Parlamento. Sánchez, que foi ministro daquela gestão, capitaliza a revolta de eleitores rurais e indígenas que consideram Castillo um injustiçado pelo Congresso peruano. A bandeira do candidato da esquerda é ambiciosa: aprovar reformas sociais e uma nova Constituição para anular a Carta Magna criada sob o fujimorismo.
A disputa de domingo transcende as fronteiras andinas, posicionando-se no centro da guerra fria comercial entre Washington e Pequim. Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), aponta que as propostas de Sánchez chocam-se frontalmente com a plataforma fujimorista de alinhamento com os americanos. Segundo Menon, os acenos de Keiko a Trump miram o recrudescimento da política de imigração e um freio drástico à hegemonia econômica chinesa no Pacífico.













