Cariacica (ES) – A Bolívia atravessa nesta sexta-feira (5) seu 36º dia de uma efervescente crise política, marcada por mais de oitenta bloqueios de rodovias espalhados pelo país. A escalada dos protestos, que pedem a renúncia do presidente Rodrigo Paz após seis meses no cargo, coincide com uma onda de prisões de líderes sociais – algumas, inclusive, classificadas por organizações como “sequestros” – e o declarado respaldo militar dos Estados Unidos ao governo. O cenário alimenta a instabilidade de uma nação já exausta.
Entre os alvos da repressão, está Simone Quispe, ex-senadora do partido MAS, detida na quarta-feira (4), em uma operação contestada por familiares que alegam a ausência de mandado de apreensão. Outros nomes detidos incluem Justino Apaza, secretário executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz, e Yesenia Varga, dirigente da Federação Carrasco, de Cochabamba. As acusações oficiais são graves: “terrorismo” e “instigação pública para delinquir”. Houve, contudo, recuo judicial: pedidos de prisão para Vicente Salazar, da organização Los Ponchos Rojos, e Mario Argollo, presidente da Central Operária da Bolívia (COB), a principal central sindical, foram revogados após Argollo anunciar sua iminente clandestinidade.
Os protestos, que iniciaram pela má qualidade do combustível, ganharam fôlego e massa com a promulgação de uma nova lei de terras, acusada pelos camponeses de favorecer o agronegócio em detrimento de pequenos proprietários. As manifestações paralisam o trânsito em ao menos 81 pontos, segundo a Administradora Boliviana de Rodovias (ABC), concentrando-se em regiões como La Paz, Cochabamba e Potosí, e causando desabastecimento de alimentos e medicamentos.
Em meio a esta convulsão interna, a administração de Rodrigo Paz, um governo de direita que rompeu quase duas décadas de poder da esquerda, recebeu o apoio de Pete Hegseth, secretário de Defesa dos EUA. Ele afirmou, em rede social na quinta-feira (4), que “A Bolívia não deve se permitir cair na armadilha do antigo status quo de domínio narco-terrorista na região”, tentando associar os manifestantes ao narcotráfico. Os Estados Unidos reforçaram ainda mais seu envolvimento com o retorno da DEA (Administração do Controle de Drogas) ao país, uma agência expulsa em 2008 pelo ex-presidente Evo Morales.
Internamente, a pressão gerou baixas significativas: os ministros da Defesa, Marcelo Salinas, e da Educação, Beatriz García, renunciaram em 2 de junho, somando-se a Edgardo Morales (Trabalho), que saiu em 21 de maio. O comando da Defesa foi assumido por Ernesto Justiniano, figura com fortes laços ao combate ao narcotráfico. Enquanto isso, o Congresso derrubou um limite para o estado de exceção e analisa um novo projeto sobre o tema, aprovado pelo Senado, com potencial para ampliar a repressão. Para especialistas, o cenário boliviano, com a população exausta pelos bloqueios e manifestantes determinados, mantém-se imprevisível, beirando a ameaça de um estado de exceção.











