Baixo Guandu (ES) – O cenário das grandes cidades brasileiras passou por uma transformação radical na percepção de seus habitantes. Se antes o discurso público era pautado quase inteiramente por saúde e educação, agora a prioridade deslocou-se para os alagamentos e as inundações recorrentes. A mudança de foco foi registrada pela pesquisa Viver nas Cidades: Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, divulgada nesta terça-feira, dia 2, abrangendo dez capitais do País.
A realidade é sentida com mais força em locais como Porto Alegre, onde 64% da população aponta a água nas ruas como a principal ameaça. Em Goiânia, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro, o drama se repete com índices que variam de 40% a 50%. A exceção notável fica com São Paulo: por lá, a poluição atmosférica é a preocupação que consome a maior parcela dos moradores, atingindo 51% das menções.
O perfil dos entrevistados oferece uma leitura clara dessa inquietude. Entre as classes A, B e C, além do público com maior nível de escolaridade, o medo de enchentes é onipresente. Já nas camadas mais pobres, o debate parece ter contornos distintos. Para os pesquisadores, a explicação está na visibilidade política de curto prazo. Gestores tendem a privilegiar obras de recapeamento asfáltico em detrimento de planos de prevenção ambiental porque, no cálculo eleitoral, asfalto garante votos rápidos, enquanto a resiliência urbana exige anos de planejamento silencioso.
A urgência além da percepção
Quando questionados sobre como a mudança climática toca o cotidiano, os brasileiros não têm dúvidas: o calor excessivo é o grande vilão para 33% dos entrevistados. A lista segue com a poluição do ar, o encarecimento dos alimentos e, por fim, os eventos catastróficos de inundação.
Marina Silva, deputada e ex-ministra do Meio Ambiente, define o momento atual como uma pedagogia da perda. Para ela, a sociedade está sendo forçada a aprender através da dor. O diagnóstico sugere que o ano eleitoral será complexo, com o risco de candidatos suavizarem o discurso sobre riscos ambientais para evitar desgastes políticos. A estratégia defendida, no entanto, é de uma integração real: União, estados e municípios não podem agir isolados.
Ao todo, 84% dos 3,5 mil entrevistados acreditam que as prefeituras possuem o poder de frear o agravamento dos danos climáticos. Com dados colhidos em dezembro, o trabalho aponta um desejo latente por políticas que superem a simples adaptação, mirando em modelos de desenvolvimento realmente sustentáveis.













