Recife (PE) – Até novembro, Recife se transformará no laboratório de um experimento que pretende traduzir a linguagem oculta da natureza urbana. Cientistas locais utilizarão recursos de inteligência artificial para monitorar as alterações físicas e comportamentais de animais e plantas locais, convertendo esses dados biológicos em um inovador mapa de saúde urbana.
A iniciativa, batizada de Apeiron e conduzida pelo Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR), buscará formular o Índice de Resiliência Metabólica (IRM). Trata-se de uma escala de 0 a 100 estruturada de maneira semelhante ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), mas focada estritamente em critérios ecológicos.
Decodificando as espécies da capital
Sob a liderança de Artur Maia, biólogo e pesquisador do departamento de botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o monitoramento examinará uma gama variada de dinâmicas biológicas no Recife: os sinais sonoros emitidos por morcegos, a movimentação aérea de abelhas, a taxa respiratória da aroeira e a movimentação das conchas de ostras. Sob condições estressantes e poluídas, por exemplo, as ostras reduzem sua filtração e se fecham por mais tempo, uma estratégia natural para sobreviver sem absorver metais pesados.
O nível desse sofrimento biológico urbano será medido pelo contraste direto com espécimes idênticos que habitam locais preservados no litoral sul de Pernambuco, como a Reserva Ambiental de Saltinho e a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe. Para os cientistas, o estresse celular e sistêmico é uma variável que os seres vivos não conseguem simular ou maquiar.
Dos profetas da chuva ao algoritmo
Essa busca tecnológica por compreender o ecossistema dialoga estreitamente com a sensibilidade ancestral. No interior do Ceará, em Quixadá, o profeta da chuva Renato Lino, de 78 anos, realiza prognósticos meteorológicos observando os mesmos seres ao seu redor. Saberes herdados de seu pai lhe ensinaram a interpretar os descascamentos da árvore catingueira e o posicionamento exato da entrada da casa da maria-de-barro, pássaro conhecido cientificamente como Funarius furnus.
Agora, o cruzamento do monitoramento contemporâneo desses metabolismos visa amparar tomadas de decisões práticas no urbanismo regional. A meta é criar planos de mobilidade e habitação sensíveis às assimetrias térmicas de bairros distintos de Recife, como a Mustardinha e Casa Forte, enxergando a capital pernambucana como um corpo vivo e verdadeiramente integrado.













