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Mercúrio e chumbo: estudo encontra metais em caranguejos-uçá do litoral do Paraná

Redação I Correio Espirito Santo Por Redação I Correio Espirito Santo
Quarta-feira, 27 de Maio de 2026
Em Natureza
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Mercúrio e chumbo: estudo encontra metais em caranguejos-uçá do litoral do Paraná

📷 Fernando Frazão/Agência Brasil

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Paranaguá (PR) – Quase 50 anos após começar a catar caranguejo em manguezais do litoral paranaense, o pescador Antônio de Souza, conhecido como Pano, passou a dividir o dia a dia da pesca com uma preocupação que agora chega ao debate científico: a presença de mercúrio e chumbo em caranguejos-uçá. A captura, liberada para quem atua na região durante a temporada anual que vai de dezembro a meados de março, segue acompanhada de um argumento central do setor pesqueiro local — o defeso é indispensável para preservar a reprodução do crustáceo.

Em visitas ao manguezal da Oceania, em Paranaguá, no litoral do Paraná, Antônio ressaltou a importância de respeitar o período em que a captura é proibida. Para ele, a medida não é apenas uma regra: é uma forma de garantir que a próxima geração continue tendo o caranguejo como alimento e sustento. “É um ganha-pão”, resume o catador, lembrando que, no intervalo do defeso, a renda vem da pesca de peixes.

Antônio é colaborador do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), uma iniciativa voltada ao monitoramento ambiental desenvolvida pela Associação Mar Brasil. Desde 2009, a ação conta com patrocínio voluntário do Programa Socioambiental da Petrobras. A atuação inclui atividades no litoral paranaense que buscam acompanhar as condições do mangue e o estado de um de seus principais moradores: o caranguejo-uçá.

Esse acompanhamento ganhou novo recorte com um estudo conduzido pela professora Cassiana Baptista Metri, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e pesquisadora do Rebimar. O trabalho se dedica a investigar a presença de elementos químicos no caranguejo-uçá, com foco em concentrações específicas. A análise apontou ocorrência de zinco, manganês e magnésio, citados como componentes importantes para a constituição do corpo humano.

Ao mesmo tempo, porém, os resultados revelaram um alerta. “A gente encontrou contaminantes que não são desejáveis — mercúrio e chumbo — concentrados no caranguejo”, disse Cassiana. Ela ressalta que a presença desses contaminantes não foi constante. A variação ocorreu conforme o local avaliado e também conforme a época do ano, o que sugere relação com fatores ambientais e com a dinâmica do ambiente costeiro.

Quando o assunto é impacto na saúde, a pesquisadora pondera que os dados ainda exigem aprofundamento. Para ela, é necessário entender com mais precisão o efeito do consumo de um caranguejo potencialmente contaminado. “A gente tentar entender o quanto que o consumo de um caranguejo potencialmente contaminado pode prejudicar a saúde”, afirmou. Cassiana, contudo, antecipa uma diferença importante: o consumo do uçá tende a ser restrito à região e ocorre em um período delimitado no calendário, tradicionalmente no verão, fora do defeso.

Com isso, ela indica que a avaliação futura deve considerar quantidade e frequência. “É diferente de quando você come uma coisa todo dia. Agora a gente vai fazer um cálculo da quantidade, porque tem alguns metais que vão acumulando no organismo e não são eliminados. Então, isso que é preocupação e que a gente precisa entender”, completou.

O cenário ambiental do entorno do manguezal ajuda a explicar por que a investigação aponta para variações. A área fica próxima de zonas com características distintas, como o Porto de Paranaguá, marcado por intenso tráfego de navios, além da Ilha da Cotinga, território indígena, e da Ilha do Mel, com vocação turística. Essa heterogeneidade reforça a necessidade de monitorar continuamente, já que pressões diferentes podem alterar a composição do ambiente e, por consequência, o que chega à cadeia alimentar.

Apesar do achado químico, o estudo também descreve um aspecto que chama atenção: o caranguejo não apresentou sinais de adoecimento durante as observações do período analisado. “O caranguejo estava ótimo, saudável, estava fazendo suas atividades.” A partir desse quadro, Cassiana levanta duas possibilidades para entender por que mercúrio e chumbo foram detectados sem que isso se traduzisse, ao menos naquele recorte, em perda evidente de condição biológica.

Uma hipótese considera a capacidade do próprio animal de lidar com contaminantes por meio da carapaça. “Um caminho é entender se ele manda isso [os contaminantes] embora, e uma das alternativas pode ser a carapaça, que todo ano ele troca, pode ser que ele acumule na carapaça e isso a gente está bem perto de descobrir.” Nessa lógica, parte do risco poderia ficar contida na estrutura rígida externa, que muda ao longo do ciclo do crustáceo.

A outra linha de investigação está ligada à base alimentar do caranguejo-uçá. Como fonte de alimento, o animal se relaciona às folhas do mangue, que carregam alto teor de tanino. A pesquisadora sugere que compostos desse tipo podem ter papel protetor. “Pode trazer alguma atividade antioxidante que o protege. O tanino faz durar mais as coisas”, comentou, indicando que, se essa proteção estiver confirmada, o resultado poderia abrir caminho para aplicações futuras, inclusive no desenvolvimento de produtos pela indústria farmacêutica.

No mesmo projeto, há também frentes voltadas à caracterização do ambiente e à saúde do manguezal. O patrocínio atual, no âmbito do ciclo apoiado, soma cerca de R$ 6 milhões para quatro anos. Os recursos permitem monitorar fauna e ambiente marinho na chamada Grande Reserva Mata Atlântica, apontada como o maior remanescente contínuo do bioma, com extensão que vai do sul do litoral paulista, segue pelo Paraná e alcança o norte do litoral catarinense.

Para apoiar o trabalho, o Rebimar utiliza ferramentas como imagens de satélite, drones e técnicas de georreferenciamento. Com esse conjunto de métodos, o projeto estima a existência de 49 mil hectares de manguezais — área equivalente à cidade de Porto Alegre, segundo as próprias contas do programa. Também há projeções de retorno social e ambiental: de acordo com os cálculos apresentados pela estatal, cada real investido gera retorno médio de R$ 4,88 em benefícios sociais e ambientais.

Dentro das atividades, a oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo monitora a saúde da vegetação dos manguezais. Em expedições anuais, ela mede o tamanho das árvores, avalia espessura dos troncos e verifica qualidade do solo. Para a especialista, entender biomassa e ritmo de crescimento e reprodução é essencial para avaliar a condição da floresta costeira. “Informações de como está a biomassa dos manguezais, a que taxas esse manguezal cresce, a que taxas se reproduz é entender a saúde da floresta”, descreveu.

Sarah também defende que a conservação das áreas de mangue se conecta ao conceito de carbono azul — o estoque de gás carbônico (dióxido de carbono ou CO₂) capturado e armazenado por ecossistemas costeiros e marinhos. Ela compara esse potencial a outros biomas e afirma que, em sua avaliação, há eficiência superior em relação à Floresta Amazônica, ao Cerrado e à Caatinga, em razão de características peculiares dos manguezais.

Entre esses fatores, entram condições de maré e de solo: a água do mar entra todos os dias, há salinidade e o ambiente apresenta baixa disponibilidade de oxigênio, o chamado ambiente anóxico. Segundo Sarah, esse conjunto favorece a captura mais eficiente de carbono no solo. O elemento decisivo, para ela, está no solo como grande “trunfo”. “Maré que entra todos os dias, salinidade, o ambiente anóxico — com pouco oxigênio, tudo isso proporciona uma captura muito mais eficiente de carbono no solo. O grande trunfo em relação aos outros ecossistemas é o solo”, ressaltou.

Ao manter o CO₂ dentro do ecossistema, o gás deixa de atuar como contribuinte imediato do efeito estufa, associado ao aquecimento global e às mudanças climáticas. Por isso, além do valor ecológico, os manguezais são tratados como parte de estratégias de mitigação e adaptação.

Sarah define os manguezais como “perfeita solução baseada na natureza” para enfrentar eventos extremos, incluindo inundações que se repetem com mais frequência. Ela citou que uma faixa de 100 metros de manguezal pode atenuar a energia das ondas em 60%. Também destaca o papel do tipo de solo na prevenção da erosão, o que reduz o assoreamento de áreas vizinhas.

Outro ponto destacado é a contribuição para a qualidade da água. “Estamos em grandes esponjas, filtros naturais que depuram os contaminantes e a matéria orgânica das cidades e entregam para a baía e para os estuários [regiões de transição entre o rio e o mar] uma água muito mais limpa e saudável”, concluiu a oceanógrafa.

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