Vila Velha (ES) – As urnas que se abrem neste domingo (31) na Colômbia carregam um peso estratégico que ultrapassa as fronteiras de seus 53 milhões de habitantes. Segundo país mais populoso da América do Sul, a nação decide quem governará de 2026 a 2030 em um pleito fragmentado: são 14 concorrentes no total, mas apenas três com chances reais de avançar para o segundo turno, marcado para o dia 21 de junho. Em jogo, o legado do primeiro governo de esquerda da história do país, comandado por Gustavo Petro, que, impedido por lei de tentar a reeleição, tenta apoiar a ascensão do filósofo e humanista Iván Cepeda.
Líder nas pesquisas, Cepeda consolidou sua história no parlamento colombiano de forma diferente de Petro, egresso da guerrilha M-19. Há uma densidade trágica em sua biografia: seu pai, o senador Manuel Cepeda Vargas, foi executado em 1994 por forças estatais em conluio com paramilitares. Iván Cepeda também capitaneou as denúncias que abalaram a imagem do ex-presidente de direita Álvaro Uribe no escândalo dos “falsos positivos” — episódio no qual as forças armadas assassinaram cerca de 7,8 mil jovens de periferias entre 2002 e 2008, fazendo-os passar por combatentes rebeldes. Embora Uribe tenha sido condenado em primeira instância em agosto de 2025 por suborno de testemunhas e fraude processual, acabou absolvido no recurso de segunda instância, em outubro do mesmo ano.
O uribismo resiste na candidatura da senadora Paloma Valencia, do Centro Democrático. Ela defende um enfrentamento militar rígido com as guerrilhas, sem qualquer espaço para negociação, opondo-se ao acordo de paz firmado com as Farc em 2016. Se vencer, ela projeta colocar Uribe à frente do Ministério da Defesa. Ao mesmo tempo, o campo conservador ganha o contorno inflamado de Abelardo de La Espriella, advogado milionário e outsider político que deixou uma rotina luxuosa na Itália para concorrer. Fã declarado de figuras como Donald Trump, Javier Milei e Nayib Bukele, Espriella foca no endurecimento total da segurança nacional. Seus clientes anteriores, contudo, incluem nomes controversos, como o empresário venezuelano Alex Saab e Jorge Visbal, este último condenado por ligação com grupos paramilitares.
Toda essa discussão política se dá sob a sombra de um cotidiano violento que o atual governo não conseguiu pacificar. Em fevereiro de 2025, confrontos entre militares e o Exército de Libertação Nacional (ELN) na região andina de Catatumbo desalojaram 52 mil moradores. Às vésperas da votação, na quinta-feira (28), conflitos contra dissidentes armados das Farc resultaram em 52 mortes. O pesquisador Matheus Petrelli, do Observatório Político Sul-Americano da Uerj, aponta que o futuro geopolítico do país, estratégico por suas saídas para o Caribe e para o Pacífico, está em xeque: com Cepeda, a Colômbia tende a manter uma linha de proximidade com o Brasil nas agendas ecológica e social; com Paloma ou Espriella, os rumos voltam a se alinhar rapidamente com os interesses de Washington.













