Washington, Estados Unidos – Ao classificar grupos criminosos brasileiros como terroristas, o governo de Donald Trump sinaliza um movimento mais profundo que vai além da segurança pública. Especialistas apontam que a decisão é um pilar da atual doutrina dos Estados Unidos para a América Latina, baseada no conceito de soberania limitada, que busca subordinar as agendas nacionais aos interesses estratégicos da Casa Branca.
A nova Estratégia Nacional de Segurança, divulgada por Washington em novembro de 2025, explicita o objetivo de retomar a hegemonia americana no continente. Esse endurecimento nas relações internacionais não ocorre no vácuo: reflete a disputa ferrenha pela liderança global, especialmente diante da ascensão econômica e tecnológica chinesa.
Para analistas da área, a medida cria um precedente perigoso. O enquadramento legal usado pelos americanos permite ataques contra agentes e alvos em solo estrangeiro sem a necessidade de aval do Congresso deles ou de declaração formal de guerra. O professor da USP, Paulo Borba Casella, traça um paralelo direto com o que ocorreu em Caracas no dia 3 de janeiro, quando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados sob essa justificativa.
A experiência mexicana serve como termômetro das consequências práticas desse rótulo. Após o cartel de Jalisco ser catalogado como terrorista, agentes da CIA operaram dentro do México sem o conhecimento do governo local. A situação atingiu o limite em abril deste ano, com a morte de dois espiões americanos em um acidente automobilístico, o que desencadeou uma crise diplomática aberta com a administração de Claudia Sheinbaum.
Dentro das universidades brasileiras, o debate sobre o tema aponta para uma subordinação de políticas internas. O economista Luiz Carlos Prado, da UFRJ, alerta que a manobra abre brechas perigosas para pressionar o Brasil. Sob a justificativa de combater o terrorismo, Washington ganha poder para rotular movimentos sociais brasileiros como simpatizantes de grupos criminosos. Seria, na prática, uma forma de contornar a soberania nacional e abrir caminho para interferências diretas na política e na economia do país.
Ao retirar a autonomia do Brasil em suas escolhas diplomáticas, a Casa Branca impõe a lógica de um aliado menor. A história recente em países como Líbano e Síria mostra como o carimbo de terrorismo é usado para conferir um verniz jurídico a intervenções que, em essência, buscam garantir a primazia geopolítica americana, ignorando tratados e soberanias alheias.












