Brasília (DF) – O Palácio do Planalto defendeu, na sexta-feira (29), que cabe exclusivamente às instituições, forças de segurança e ao arcabouço jurídico nacional decidir como o país deve classificar e combater a criminalidade. A posição oficial serve de contraponto direto à recente decisão dos Estados Unidos de rotular facções do narcotráfico como terroristas — um movimento visto por analistas como brecha para futuras intervenções estrangeiras.
Para o governo, a postura americana é inoportuna. Em nota, a gestão destacou que ações unilaterais têm potencial de desestruturar o compartilhamento de inteligência policial e, em um cenário mais grave, afetar o sistema financeiro brasileiro. Entre as preocupações citadas, destaca-se a possível tentativa de frear inovações nacionais, como o Pix, que, por sua eficiência e capilaridade, desafia interesses de companhias financeiras sediadas em território norte-americano.
A tensão escalou devido à articulação de parlamentares. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto, esteve reunido com Donald Trump nesta semana. No encontro, ele solicitou abertamente que o chefe da Casa Branca endureça o tratamento contra grupos criminosos brasileiros, tratando-os pela via do terrorismo. O governo reagiu com veemência, classificando a movimentação da família Bolsonaro como um flerte perigoso com a interferência externa. O comunicado oficial evocou o episódio do chamado tarifaço como exemplo do prejuízo que, na visão da atual gestão, esses personagens causam à economia brasileira.
O Planalto não nega a brutalidade das facções. O texto reconhece explicitamente que grupos como o PCC e o Comando Vermelho, além das milícias, impõem um estado de terror cotidiano para milhões de brasileiros. No entanto, faz uma distinção técnica: a finalidade dessas organizações é o lucro desenfreado — vindo das drogas e armas — e não o propósito político, ideológico ou religioso que define o terrorismo sob a ótica do Direito Internacional.
Como contraponto a essa pressão externa, a administração federal citou o programa Brasil contra o Crime Organizado. A estratégia, segundo o Palácio, atua da base operacional do crime até a sua cúpula, amparada por legislação recente que endureceu as penas para integrantes dessas estruturas, podendo alcançar até 80 anos de reclusão. O Planalto fechou o comunicado com críticas duras, tratando o pleito de opositores como um esforço de “traidores” e “falsos patriotas” que tentam instrumentalizar a segurança pública para angariar dividendos políticos junto a autoridades estrangeiras.











