Moscou, Rússia – O embaixador Celso Amorim, atual assessor especial da Presidência da República, reagiu com cautela à recente movimentação dos Estados Unidos em rotular organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Durante o Fórum Internacional de Segurança, realizado em Moscou, o diplomata cravou que qualquer tentativa de usar essa nova nomenclatura como justificativa para incursões externas no território brasileiro é inadmissível.
O posicionamento de Amorim reforça o desconforto oficial do governo brasileiro diante do cenário geopolítico. Embora o discurso do assessor reconheça a urgência em sufocar as redes criminosas — citando nominalmente o combate à lavagem de dinheiro e o tráfico ilícito de armamentos como pilares necessários de colaboração entre nações — há um limite claro traçado pela diplomacia do país: a soberania nacional.
Para o governo, colocar o narcotráfico na mesma prateleira do terrorismo internacional não produz resultados práticos. O embaixador argumentou, diante de autoridades presentes no fórum, que a eficácia no combate à criminalidade depende menos de rótulos jurídicos extremos e mais da compreensão das causas profundas que alimentam essas estruturas. Na visão de Brasília, equiparar as duas frentes pode ser uma estratégia perigosa.
O temor, compartilhado por especialistas em segurança pública e relações internacionais, baseia-se na jurisprudência americana na América Latina. O argumento de Washington, que circula frequentemente sob o manto da “guerra ao terror” ou do combate ao “narcoestado”, costuma preceder sanções e pressões políticas.
O histórico de intervenções recentes serve como pano de fundo para a apreensão brasileira. Em janeiro, a captura do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, sob a acusação de gerir uma rede narcotraficante, reaqueceu o debate sobre os critérios utilizados pela Casa Branca. Na ocasião, o rótulo de líder de um cartel foi aplicado com severidade, para depois ser suavizado, expondo a fragilidade das justificativas operacionais frente à soberania regional. Semelhante é o caso de Cuba, mantida na lista de países que supostamente apoiam o terrorismo — uma alcunha que a maior parte da comunidade internacional contesta pela ausência de evidências robustas, mas que serve de arcabouço jurídico para manter o rigoroso bloqueio econômico contra a ilha.
Ao abordar o tema sob a luz da segurança global em Moscou, Amorim buscou demarcar o terreno brasileiro. Para ele, o foco das autoridades deve ser o rigor operacional e a determinação técnica, e não o uso de uma retórica que acaba servindo a propósitos que transcendem o simples combate ao crime organizado.












