Araxá (MG) – O legado intelectual de Milton Santos, o geógrafo brasileiro mais celebrado internacionalmente, serve como bússola para a 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá, o Fliaraxá. O evento, que teve início nesta quinta-feira (14) na cidade mineira, celebra o centenário do pensador baiano sob o tema Meu lugar no mundo, uma provocação que parte da premissa de que a visão de cada indivíduo sobre o universo é sempre condicionada pelo espaço geográfico e cultural que ele ocupa.
A geografia como convite à imaginação
A neta do geógrafo, Nina Santos, enxerga na obra do avô uma ferramenta poderosa para a criação de novos imaginários. Para ela, o pensamento de Milton não se limita a uma crítica fria da realidade, mas funciona como um convite constante para que cidadãos interpretem e reconstruam o mundo ao seu redor. Ao defender que o mundo é formado não apenas pelo que existe, mas pelo que pode vir a existir, o geógrafo estabelece uma ponte direta com a literatura. Essa capacidade de vislumbrar outras possibilidades, segundo Nina, é o que aproxima a geografia da ficção, unindo cidadania e escrita na construção de mundos possíveis.
A trajetória de Milton Santos, que transitou por Salvador, Ilhéus, França, Japão e Tanzânia, moldou sua percepção sobre a relatividade dos centros de poder. Ele desconstruiu a ideia de que o eixo do mundo deveria ser, necessariamente, cidades como Nova York ou Paris. Essa descentralização do olhar é, na visão de sua neta, um exercício democrático, permitindo que qualquer pessoa, independentemente de onde esteja, possa exercer o direito de contemplar o globo a partir de suas próprias coordenadas geográficas e metafóricas.
Literatura e memória em foco
Entre as figuras centrais desta edição, o escritor angolano José Eduardo Agualusa apresenta seu novo livro, Tudo sobre Deus. A obra acompanha um geólogo que, ao enfrentar a proximidade da morte, isola-se em uma capela no deserto da Namíbia para registrar suas reflexões em diário e poesia. Agualusa confessa que o processo de escrita foi um desafio pessoal, marcado por um período de doença, e que o resultado final se tornou seu projeto mais poético até hoje.
Para o autor, o contato com o público brasileiro em festivais como o Fliaraxá é vital. Ele acredita que o livro só ganha vida plena quando passa pelo crivo do leitor, um processo de troca constante onde o escritor também aprende sobre as camadas de seus próprios textos. Agualusa, que atualmente revisita a genialidade de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, defende que a grande literatura nasce do específico, mas alcança o universal. Para ele, o ofício de escrever exige a capacidade de habitar a pele do outro, independentemente das fronteiras territoriais.
Conexão com as novas gerações
A programação do festival, que segue até o próximo domingo (17), reúne nomes variados como Djonga, Bianca Santana e Marcelino Freire. A curadoria, assinada por nomes como Sérgio Abranches e Afonso Borges, buscou equilibrar o peso acadêmico com a vivacidade das artes contemporâneas. Além dos debates, o evento promove um prêmio de redação e desenho voltado aos estudantes das redes de ensino, reforçando o compromisso com a formação de novos leitores.
Uma exposição fotográfica composta por registros de alunos entre 10 e 18 anos, capturados através de câmeras analógicas, também integra as atividades. Ao colocar a literatura e o pensamento crítico no centro das discussões em Araxá, o evento reafirma o convite de Milton Santos: entender que o lugar de onde olhamos é, acima de tudo, o ponto de partida para qualquer transformação real.











