Brasília (DF) – Na terça-feira, dia 2, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom ao responder às alegações do governo dos Estados Unidos de que o Brasil pratica medidas desleais no comércio exterior. O argumento de Washington, que rotula a postura brasileira como irrazoável, colide com a matemática do câmbio: se existe um lado com saldo devedor nessa história, esse lado não é o brasileiro. Durante uma agenda em Catalão, Goiás, Lula jogou luz sobre os 415 bilhões de dólares que compõem o superávit dos norte-americanos acumulado nos últimos 15 anos.
O foco do chefe do Executivo recai sobre a discrepância dessa balança. Em tom ácido, ele defendeu que, na lógica econômica da coisa, a prerrogativa de elevar tarifas deveria recair sobre o Brasil, dada a larga vantagem que os EUA levam na relação bilateral. O embate sobre o suposto protecionismo brasileiro ressurge em meio à ameaça de Washington de taxar em 25% produtos vindos do Brasil, sob a justificativa de que políticas internas locais restringiriam o mercado norte-americano.
Lula recordou que, em maio, teve uma conversa de três horas com Donald Trump na Casa Branca, focada em segurança, minerais estratégicos e comércio. Na ocasião, o brasileiro propôs uma trégua de 30 dias para que as equipes técnicas pudessem conferir os dados e checar quem, afinal, estava criando obstáculos comerciais. Passados os contatos posteriores, não houve consenso. O impasse parece ser menos sobre números e mais sobre retórica. Enquanto a Casa Branca aposta no punho firme das taxas, o brasileiro definiu o enfrentamento atual como a sua própria guerra da verdade.
A tensão não se resume ao terreno técnico. O cenário político interno serviu de munição para o discurso em Goiás. Sem mencionar nomes diretamente, o presidente criticou o comportamento de aliados da antiga gestão bolsonarista diante de tarifas anteriores aplicadas por Trump — que chegaram aos 50% em exportações brasileiras. Ele resgatou um episódio ocorrido em 9 de julho de 2025, no qual parlamentares celebraram o protecionismo norte-americano, agradecendo publicamente ao governo dos Estados Unidos por medidas que penalizavam o setor produtivo nacional.
É um xadrez complicado. O relatório da investigação dos Estados Unidos deixa a porta aberta para imposições concretas contra bens brasileiros, elevando a pressão sobre a diplomacia local. Enquanto Brasília sustenta que os números provam o equilíbrio, Washington insiste na narrativa da onerosidade. Sem porta-aviões ou ogivas nucleares para embasar sua postura geopolítica, Lula parece focado em usar as estatísticas como sua principal defesa nesta contenda que, embora técnica no papel, mantém a temperatura elevada nos dois hemisférios.













