Lima, Peru – Peruferidos pela instabilidade política, cerca de 27 milhões de eleitores decidirão neste domingo (7) quem será o novo presidente do país, o nono a ocupar o cargo em apenas dez anos. A disputa no segundo turno colocou frente a frente a direitista Keiko Fujimori, que liderou a primeira votação com 17,1%, e o esquerdista Roberto Sánchez Palomino, com 12,0%.
A escolha deste domingo acontece em um cenário de profunda polarização. Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, carrega o peso de um legado controverso, que inclui condenações por violações de direitos humanos. Por outro lado, sua herança política também desperta forte rejeição em parte do eleitorado.
Roberto Sánchez, por sua vez, busca capitalizar sobre o sentimento anti-Fujimori. Aliado do ex-presidente Pedro Castillo – que foi destituído e preso após tentar dissolver o Congresso –, Sánchez promete reformas constitucionais e sociais para romper com a Carta Magna herdada do fujimorismo. Ele também tem se apresentado como representante dos setores rurais e populares, evocando a figura de Castillo, que mobilizou essas bases.
“Essa polarização é natural, dadas as últimas décadas. É possível que votos contra Fujimori surjam. Sánchez tem representado o anti-fujimorismo, uma força que creio ser majoritária”, avalia Salvador Schavelzon, antropólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O antropólogo ressalta que Sánchez, ao usar o “chapéu de Castillo”, simboliza o voto do interior do país, menos visível em pesquisas.
A crise política que assola o Peru desde 2016 já levou à renúncia de dois presidentes e à destituição de seis pelo Congresso. O parlamento, que consolidou grande poder, tem sido protagonista nas constantes mudanças de comando. A última a sofrer o processo foi Dina Boluarte, substituída interinamente por José Jerí e, posteriormente, por José María Balcázar Zelada, após intensos embates.
O resultado desta eleição transcende as fronteiras peruanas, impactando a geopolítica regional. Schavelzon sugere que uma vitória de Fujimori reforçaria a tendência de alinhamento com os Estados Unidos e a extrema-direita continental. Já uma vitória de Sánchez, embora menos provável de gerar rupturas drásticas com Washington ou governos de direita na região, enfrentaria desafios para se consolidar diante da oposição no Congresso. “Ele não terá como prioridade buscar uma posição geopolítica diferente, pois nem tem possibilidades, nem contexto para isso”, pondera o analista.
A instabilidade recente culminou com a deposição de Castillo em 2022, que tentou dissolver o parlamento e foi acusado de tentar um golpe. Seus apoiadores o veem como vítima do sistema por representar o voto de comunidades rurais e indígenas. Dina Boluarte, sua vice, assumiu em meio a protestos reprimidos violentamente, deixando quase 50 mortos, segundo a Anistia Internacional.











