São Paulo (SP) – As armadilhas digitais disfarçadas de oportunidades relacionadas ao futebol mais que dobraram no caminho para a Copa do Mundo de 2026. Se em 2022 cerca de 19% dos brasileiros que usam a internet se depararam com algum tipo de golpe, agora esse índice salta para 34%, segundo aponta um levantamento da NordVPN. O cenário, que tem gerado alarme, reflete uma sofisticação crescente dos ataques cibernéticos, turbinada pela inteligência artificial.
Só nos últimos três meses, a escalada foi tão expressiva que as reclamações ao Procon-SP sobre a Copa do Mundo chegaram a multiplicar por oito. O órgão registrou 238 queixas entre março e maio deste ano, um salto notório quando comparado às 19 reclamações no mesmo período de 2022. A tendência de crescimento é clara: 63 registros em abril e 156 em maio.
A velocidade com que os criminosos agem é um dos fatores mais preocupantes. Diferentemente de quatro anos atrás, quando a montagem de sites falsos e campanhas de phishing demandava tempo e perícia técnica, hoje, ferramentas de inteligência artificial generativa encurtam esse processo para meras horas. “Esse ciclo caiu para poucas horas”, comenta Marcelo Souza, vice-presidente de Produto da Certta. O resultado são golpes cada vez mais personalizados, utilizando dados vazados, como CPF e histórico de compras, para mirar precisamente nas vítimas.
Outra mudança que altera a dinâmica das fraudes é a ascensão do Pix. Se em 2022 cartões e boletos dominavam as transações, agora o método instantâneo se tornou o queridinho dos golpistas. A instantaneidade e a irreversibilidade das transferências via Pix diminuem drasticamente a janela de oportunidade para recuperar o dinheiro perdido. “Eliminam a janela de reação”, explica Souza.
Para além da tecnologia, a astúcia dos criminosos se manifesta na criação de marcas fictícias que se apresentam como parceiras oficiais do evento. Eles também têm se infiltrado em grupos de torcedores e colecionadores para ganhar confiança antes de aplicar os golpes. As redes sociais, em especial Instagram (51%), WhatsApp (48%), Facebook (35%) e TikTok (26%), continuam sendo o principal campo de ação.
As fraudes não se limitam ao ambiente digital, se estendendo ao comércio físico, especialmente no universo das figurinhas e álbuns da Copa. O Procon-SP aponta não entrega, atraso, ofertas não cumpridas, vendas enganosas e produtos diferentes do anunciado como as ocorrências mais comuns. As reclamações sobre figurinhas dispararam de zero em março para 34 em abril e 109 em maio, concentrando-se em anúncios falsos em marketplaces e grupos de mensagens.
A proliferação da IA traz ainda um desafio de “crise de confiança digital”, segundo Souza, tornando difícil distinguir conteúdo autêntico do manipulado. Ele defende que a proteção se torna cada vez mais dependente de sistemas avançados de autenticação e da capacidade de detectar comportamentos atípicos em tempo real. “Se os cibercriminosos alteram suas táticas em questão de horas, por que muitas companhias ainda levam semanas ou meses para atualizar regras de prevenção?”, questiona.
Diante desse cenário, o Procon-SP recomenda pesquisar a reputação de vendedores, desconfiar de preços muito baixos, verificar dados como CNPJ e endereço, e guardar comprovantes. A NordVPN sugere ignorar gatilhos de urgência, checar a data de criação de domínios e desconfiar de sites que aceitam apenas Pix.











