Washington, Estados Unidos – A classificação de facções criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas pelos Estados Unidos — decisão comunicada em maio e com vigência a partir desta sexta-feira (5) — lança uma sombra de preocupação sobre as relações bilaterais e a economia do Brasil.
A medida, articulada pela administração de Donald Trump, é vista pelo governo brasileiro como um flanco aberto para a intromissão americana em assuntos internos, sob o pretexto de combater o terrorismo. Brasília defende que o combate ao crime deve se basear na cooperação entre nações, sempre com respeito à soberania de cada Estado sobre seu território.
Para analistas, essa designação pode, sim, minar a soberania nacional e servir como justificativa para futuras intervenções estrangeiras diretas no país. Além disso, a própria economia brasileira figura entre as preocupadas. Prejudicar a imagem do país pode impactar negativamente o turismo, atrair menos investimentos, desfavorecer o comércio exterior e, de certa forma, até interferir no sistema financeiro nacional.
Não é a primeira vez que Washington adota essa linha. Cartéis mexicanos e organizações criminosas de países como Venezuela, Equador e Colômbia já receberam o mesmo rótulo. Em março, os EUA criaram a coalizão “Escudo das Américas”, reunindo nações aliadas para, em teoria, enfrentar o narcotráfico. Contudo, críticos apontam que tal aliança também serve para conter a influência econômica de rivais geopolíticos como China e Rússia.
O próprio combate ao narcotráfico, de fato, já serviu de argumento para ações americanas controversas, como o que o Brasil e outros países denunciam como interferência indevida em seus affairs internos.
Em um movimento que gerou estranhamento, apenas quatro dias após o anúncio da classificação das facções, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA sugeriu novas taxações sobre importações brasileiras. A justificativa: práticas comerciais consideradas desleais. Um ponto específico foi a crítica ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, que, segundo o documento, estaria desfavorecendo empresas americanas como Visa, Mastercard e Whatsapp Pay.
Dias depois, o governo Trump externou a intenção de impor tarifas adicionais de 10% a 12,5% sobre importações de 60 países, incluindo o Brasil. A justificativa oficial, desta vez, apontou falhas no combate a produtos fabricados com trabalho forçado.
O Itamaraty, por sua vez, contesta tais alegações, vendo-as como artifícios para justificar medidas protecionistas unilaterais. O ministério das Relações Exteriores já sinalizou que o Brasil pode invocar a Lei de Reciprocidade, que autoriza o governo a retaliar comercialmente países que impõem barreiras não negociadas aos produtos nacionais no mercado global.












