Brasília (DF) – A decisão do governo americano de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas é vista por especialistas como um ato populista, capaz de interferir na soberania de outros países e, quem sabe, até nos pleitos eleitorais futuros.
Jacqueline Muniz, professora e pesquisadora de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, aponta uma série de ressalvas à medida. Entre as preocupações, ela cita o potencial uso político dessa designação, a fragilização da soberania nacional, a criação de brechas para repressão de protestos e o risco de arbitrariedades. Na avaliação dela, a mudança de rótulo pouco faz para alterar a raiz do problema do crime organizado, resumindo a ação a uma mera “espetacularização”.
A especialista argumenta que a medida serve mais aos interesses políticos de Donald Trump e fortalece a narrativa de Marco Rubio, sem, contudo, atacar as causas do crime ou desmantelar a economia ilegal. A decisão entra em vigor no dia 5, baseada na Lei de Imigração americana e em uma ordem executiva de Trump. O secretário de Estado, Marco Rubio, por sua vez, já havia classificado as facções brasileiras como “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil” em um comunicado divulgado nas redes sociais.
O timing do anúncio, feito em 28 de novembro, dois dias após um encontro entre Flávio e Eduardo Bolsonaro com Trump na Casa Branca, levanta questões sobre possíveis interferências eleitorais. Carolina Ricardo, do Instituto Sou da Paz, expressa preocupação, definindo a ação como uma “medida populista” que cria uma “cortina de fumaça” para a população. Para ela, o risco é fortalecer a agenda de um candidato e influenciar eleições, dando uma falsa impressão de solução.
O governo brasileiro ainda não se posicionou oficialmente, mas a repercussão já é sentida no Congresso. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, vê a ação como uma articulação da extrema direita que vai de encontro à proposta de cooperação internacional apresentada pelo presidente Lula durante sua visita aos Estados Unidos.












