Rio de Janeiro (RJ) – O Dia Mundial da Bicicleta, celebrado nesta quarta-feira, 3 de junho, expõe feridas antigas no desenho urbano carioca. Enquanto o mundo debate sustentabilidade, a capital fluminense enfrenta o desafio prático de garantir que o modal seja, de fato, uma alternativa segura e democrática para todos, e não apenas uma vitrine nas zonas turísticas.
Andrea Santos, pesquisadora do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, aponta que o crescimento das vias destinadas ao ciclista caminha a passos lentos e repletos de falhas estruturais. Para a especialista, a grande questão é a equidade. Atualmente, o planejamento de mobilidade ignora áreas periféricas, concentrando melhorias onde vivem as classes A e B e onde circulam visitantes. Segundo ela, esse direcionamento falha ao ignorar a necessidade real de transporte sustentável nas regiões mais populosas e negligenciadas da cidade.
A história da bicicleta como ferramenta de mobilidade no Rio começou de forma estruturada apenas em 1991, com o projeto Rio Orla, ganhando tração com a Eco-92. Contudo, décadas depois, a segurança permanece como a maior vulnerabilidade. Santos defende que a expansão da malha precisa vir acompanhada de uma educação consistente — não apenas para quem pedala, mas também para usuários de bicicletas elétricas e ciclomotores, num esforço coletivo para frear o índice de fatalidades no trânsito urbano. Procurada, a prefeitura não comentou o planejamento atual.
Em um movimento que une reflexão e prática, o autor argentino Juan Carlos Kreimer, de 81 anos, aproveita a data para lançar no Jardim Botânico sua obra Zen Ciclismo: a Bicicleta como Caminho. Para Kreimer, que pedala há mais de sete décadas, a máquina vai muito além da locomoção física. Ele enxerga a bicicleta como uma extensão do corpo e uma forma de reconexão do indivíduo com o espaço urbano. O ciclismo, na visão do escritor, atua como um antídoto prático às complexas crises de mobilidade das grandes metrópoles contemporâneas.
A celebração da data foi oficializada pela ONU em 2018, consolidando a bicicleta como um dos pilares da saúde pública e ambiental no século XXI. Contudo, no cenário carioca, os discursos de bem-estar social esbarram no cimento e na burocracia. O alerta dos especialistas é claro: para que a bicicleta saia da zona de conforto dos cartões-postais e se torne um transporte eficiente, o poder público precisa reformular suas prioridades, saindo de um plano desenhado para o turismo e investindo em infraestrutura de qualidade onde o cidadão realmente vive.













