Colatina (ES) – O Brasil entrou, pela primeira vez, na categoria de desenvolvimento humano “muito alto” ao registrar 0,805 no IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) em 2024. O resultado marca uma evolução em relação a 2012, quando o país alcançou 0,744. Na escala que vai de 0 a 1, a faixa “muito alta” começa quando o indicador supera 0,800.
Os números foram apresentados em uma edição do Radar IDHM divulgada nesta terça-feira (26), em levantamento conduzido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil. A pesquisa analisa um intervalo de 13 anos, cobrindo de 2012 a 2024, e acompanha mudanças nos fatores que compõem o desenvolvimento humano.
O índice considera dimensões relacionadas à saúde e longevidade, educação e geração de renda. Esses resultados também são desagregados conforme recorte de cor (negro e branco) e sexo (mulher e homem), permitindo observar desigualdades e avanços ao longo do período.
Quando o Pnud começou a calcular esse tipo de índice, há cerca de 30 anos, o Brasil era classificado com IDHM baixo, isto é, abaixo de 0,555. Ao longo das décadas, o país passou por transformações que refletiram tanto em políticas sociais quanto na consolidação de serviços públicos capazes de afetar diretamente a vida da população.
Na avaliação do Pnud, o componente que mais contribuiu para a alta do IDHM entre 2012 e 2024 foi a educação. Em 2012, o indicador educacional era 0,679; em 2024, chegou a 0,798. Esse avanço, de acordo com a coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, se conecta a uma política pública de alcance nacional, com destaque para o Bolsa Família.
Betina Barbosa apontou que o programa, ao longo do tempo, afeta o cotidiano de crianças e adolescentes ao reduzir o trabalho infantil e ao reforçar as exigências de frequência escolar. Ela destacou que a política “retira quantidade enorme de crianças do trabalho” e oferece condições para a escola, vinculando a permanência e a obrigatoriedade de estar matriculada e frequentando.
A coordenadora lembrou ainda que o Bolsa Família foi criado em 2003, mas seus efeitos costumam aparecer cerca de dez anos depois, justamente quando o primeiro grupo de beneficiários completa tempo suficiente de escolaridade no ensino fundamental e médio. Essa defasagem ajuda a entender por que mudanças educacionais mais robustas se expressam ao longo dos anos seguintes à implantação das ações.
Ao detalhar quem mais sentiu a melhora, Betina Barbosa afirmou que o avanço educacional foi mais expressivo entre famílias de menor renda, em especial as negras. Segundo ela, é nesse contexto que a população negra começa a apresentar melhores indicadores e desempenho em educação, reduzindo a distância que historicamente marcou o acesso a oportunidades.
Ela também relacionou a mudança a um processo que se torna ascendente a partir de 2016. Para a especialista, não existe alternativa para melhorar o desenvolvimento brasileiro sem incluir a população negra na agenda de políticas públicas. O mesmo entendimento vale para as mulheres, apontadas como outro grupo que enfrenta barreiras relevantes. “Esses são dois entraves sérios para o Brasil, a desigualdade de raça e a desigualdade de gênero”, afirmou.
Entre os subíndices, a área de saúde é a que mais apresenta resultados positivos no país. O Pnud descreve que, já em 2012, a performance nesse campo era de “muito alto desenvolvimento”, com 0,829, atribuída à consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) a partir da Constituição de 1988. Ainda assim, o ritmo de crescimento foi mais lento ao longo do tempo, chegando a 0,860 em 2024.
Já o indicador de renda apresentou evolução em velocidade menor: de 0,732 em 2012 para 0,760 em 2024. Nesse período, o componente permaneceu na faixa de “alto desenvolvimento”, sem atingir a mesma aceleração observada na educação.
Os dados do Radar IDHM também mostram que regiões metropolitanas ajudam a explicar por que o país alcançou a média “muito alta”. Conforme a avaliação do Pnud, esses territórios concentram melhores condições de vida e, por isso, puxam o IDHM nacional para cima. Estados do Sul e Sudeste, em particular, já tinham níveis muito elevados, mas a média brasileira passou a ser acompanhada por regiões metropolitanas que antes eram tratadas como periferias em termos de indicadores.
Como exemplo, Betina citou a Grande Teresina, no Piauí, com índice de 0,809, considerado “muito alto”. Ela afirmou que territórios que antes puxavam a média nacional para baixo, por não acompanharem o ritmo de crescimento, passaram a contribuir para o país atingir a faixa “muito alta”.
Entre os nove estados da Região Nordeste, sete regiões metropolitanas já aparecem com IDH muito alto, algo descrito pela especialista como inédito nos trabalhos do Pnud. A lista apresentada inclui Natal (0,822), Aracaju (0,809), Grande Teresina (0,809), Recife (0,806), São Luís (0,806), Salvador (0,803) e João Pessoa (0,803).
O levantamento também registra o impacto do período mais recente da crise sanitária. Para o Pnud, nos anos de 2020 a 2022 o país enfrentou uma crise sistêmica em razão da pandemia de covid-19. Em 2021, o IDHM brasileiro atingiu 0,757.
Betina Barbosa avaliou como especialmente preocupante o fato de haver negação e demora na criação de políticas públicas capazes de lidar rapidamente com efeitos sistêmicos da pandemia. Segundo ela, “essa negação e esse não envolvimento rápido com a criação de políticas públicas que combatam crises sistêmicas” foram graves. A coordenadora afirmou ainda que o país não recuperou, “em termos de esperança de vida”, o baque provocado pela covid-19.
Nesse contexto, o Pnud destacou a mortalidade infantil como o indicador que mais preocupa, por estar ligada a ações públicas que exigem resposta rápida. O Radar IDHM aponta que não houve no país um enfrentamento suficientemente ágil para conter os impactos da pandemia.
Por fim, os resultados foram calculados a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, com parceria da equipe técnica e pesquisadores da Fundação João Pinheiro.










