Guarapari (ES) – O cenário da triagem neonatal no Espírito Santo pode passar por uma mudança significativa nos próximos meses. O deputado estadual Dr. Bruno Resende, do União Brasil, protocolou o Projeto de Lei 136/2026, com a finalidade de tornar obrigatória a realização de exames de sangue específicos para detectar precocemente alterações na coagulação em bebês recém-nascidos — tanto na rede pública quanto na privada.
Na prática, a medida propõe a inclusão de um coagulograma direcionado na rotina de triagem hospitalar. O foco está na identificação de condições como a hemofilia, nas variantes A e B, e a doença de von Willebrand. O custo desses exames, segundo o texto apresentado, seria integralmente custeado pelo SUS.
Para quem transita diariamente pelos corredores hospitalares, o argumento central é clínico: a agilidade no diagnóstico transforma o prognóstico de vida de uma criança. O parlamentar, que também exerce a medicina, defende que a descoberta dessas patologias logo no início da vida impede uma cascata de complicações graves, como hemorragias severas e danos irreversíveis a órgãos internos, músculos e articulações. Quando o tratamento começa cedo, o planejamento terapêutico torna-se mais assertivo, reduzindo a necessidade de internações prolongadas ou intervenções cirúrgicas de emergência.
O impacto, porém, não se resume apenas à saúde do paciente. Há um viés econômico claro no projeto, ao buscar a redução de gastos públicos com reabilitações e procedimentos de alta complexidade que poderiam ter sido evitados com uma detecção prévia. Com a implementação do protocolo para análise dos fatores VIII e IX e a dosagem do fator von Willebrand, a expectativa é que o sistema de saúde capixaba ganhe eficiência e as famílias recebam orientação adequada antes mesmo de qualquer crise hemorrágica.
A matéria agora segue para um rito legislativo rigoroso. Antes de chegar ao plenário para a votação definitiva pelos deputados, a proposta precisará passar pelo crivo das comissões de Justiça, Saúde e Finanças da Assembleia Legislativa.
Entendendo as condições
A doença de von Willebrand, que leva o nome do médico finlandês Erik von Willebrand — responsável por sua descoberta em 1926 —, ocorre devido a uma falha na proteína de mesmo nome. Em situações normais, essa proteína atua como um adesivo biológico, permitindo que o sangue coagule e estanque sangramentos. Quando ela não cumpre seu papel, o corpo perde essa capacidade básica de defesa.
Já a hemofilia, também de origem genética e hereditária, apresenta uma lógica distinta de funcionamento. Indivíduos com a condição sangram por períodos muito superiores ao comum devido à ausência ou deficiência crônica de proteínas específicas, conhecidas como fatores de coagulação.
A dinâmica de transmissão da hemofilia está ligada diretamente aos cromossomos sexuais. Ela se manifesta através do cromossomo X. Como as mulheres possuem dois (XX), uma mãe pode carregar o gene e transmiti-lo sem necessariamente manifestar a doença. Já nos homens (XY), a herança é mais direta: um pai hemofílico transmite o gene para todas as filhas — que recebem seu cromossomo X — mas nunca para os filhos homens, uma vez que a eles ele cede apenas o cromossomo Y.













