São José dos Campos (SP) – Aos 19 anos, Sofia Kano entende que seu sobrenome carrega um peso histórico. Natural de São José dos Campos, no interior de São Paulo, ela não apenas herdou a paixão pelo tênis de mesa, mas também se propôs a manter viva a memória de seu primo de segundo grau, Claudio Kano. Ele foi o grande responsável por colocar a modalidade no radar brasileiro entre as décadas de 1980 e 1990.
Claudio era um mestre da empunhadura estilo caneta. Canhoto, ele dominava os saques e o bloqueio de backhand, o famoso shoto. Os números falam por si: foram 12 medalhas em Jogos Pan-Americanos, sendo sete delas de ouro, além de participações olímpicas em Seul, em 1988, e Barcelona, em 1992. Sua trajetória, contudo, foi bruscamente interrompida por um acidente de moto em São Paulo, no dia 1º de julho de 1996, na véspera de sua viagem para a Olimpíada de Atlanta.
Sofia nunca conheceu o primo, mas preserva um amuleto dado pela mãe do atleta, que ainda acompanha de perto sua carreira. Para a jovem, honrar o nome da família tornou-se um norte. O interesse pela raquete surgiu cedo, aos cinco anos de idade, ao observar mesas escolares. Desde que os pais a matricularam em uma escolinha junto com o irmão, o esporte nunca mais saiu de seu dia a dia.
A carreira de Sofia tomou fôlego a partir de 2018, quando intensificou os treinos em Jacareí. Foi ali que ela se consolidou, sendo eleita a melhor atleta da categoria por três anos consecutivos. Em 2021, aos 14, garantiu sua vaga para o Campeonato Pan-Americano Sub-15. Mesmo enfrentando as barreiras sanitárias da pandemia, que a impediram de atuar nas duplas em uma ocasião, ela absorveu cada desafio como lição.
Em busca de alto rendimento, ela se mudou para o Rio Grande do Sul em 2023 para treinar na Sogipa sob o olhar de Jorge Fanck. O técnico, que possui vasta experiência com a seleção feminina adulta, promoveu uma reconstrução técnica em seu estilo de jogo. Para Fanck, a coragem de Sofia ao deixar sua cidade natal e adaptar-se a uma nova metodologia tem sido o diferencial. Hoje, como atual campeã brasileira sub-21, ela busca firmar seu nome no Absoluto A.
A rotina é intensa e exige sacrifícios calculados. Sofia concilia os treinos diários — que somam entre quatro e cinco horas de mesa, além de uma hora de trabalho físico — com o curso de Educação Física na modalidade online. O foco atual é a seleção adulta. Embora reconheça que a vaga para Los Angeles 2028 é uma meta desafiadora devido ao funil das seletivas, ela mantém os olhos no futuro. Mais do que troféus, Sofia almeja popularizar a modalidade que definiu o destino de sua família.







