Cachoeiro do Itapemirim (ES) – O rastro de destruição deixado pelo conflito iniciado em fevereiro deste ano ganhou um primeiro freio diplomático. Em Genebra, nesta sexta-feira (19), o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o principal negociador do Irã, Mohammad Baqer Qalibaf, devem assinar formalmente um acordo provisório que tenta encerrar as hostilidades. A iniciativa estende por mais 60 dias o cessar-fogo desenhado em abril e prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado pelos iranianos após bombardeios norte-americanos e israelenses no começo do ano.
Apesar do aceno de paz, o otimismo do mercado financeiro esbarra no ceticismo das transportadoras marítimas. Na terça-feira, os preços do petróleo despencaram para o menor nível em três meses — estendendo o tombo de quase 5% registrado na véspera —, mas a indústria naval adverte que restabelecer a segurança e a confiança na rota de Ormuz exigirá semanas de calmaria. De toda forma, a recuperação total da produção de gás e óleo bruto no Oriente Médio deve arrastar-se por meses.
Silêncio sobre pontos críticos
As bases do pacto são frágeis. O presidente norte-americano, Donald Trump, declarou na terça-feira que o entendimento está selado e pronto para avançar para uma segunda etapa. Contudo, os termos práticos continuam sob sigilo. À emissora CNN, o próprio Vance reconheceu que o memorando atual é um documento genérico, cujos detalhes devem ser divulgados em até dois dias.
Por outro lado, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, manifestou-se nas redes sociais apontando o acerto temporário como um avanço necessário, mas ponderou que o desenho de uma trégua definitiva ainda não existe. A próxima rodada de conversas começará na Suíça na sexta-feira (19), logo após a assinatura do acordo-quadro. O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, indicou que essa nova fase de negociações deve focar em temas complexos, a começar pelo futuro do programa nuclear de Teerã.
O que chama a atenção, no entanto, é o silêncio sobre temas cruciais. Duas das principais justificativas utilizadas por Trump e pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para sustentar a ofensiva militar — o desmantelamento do arsenal de mísseis do Irã e o fim do apoio a milícias armadas na região — ficaram de fora da mesa de negociações.
A conta política da guerra
A guerra que agora tenta se encerrar deixou um saldo de ao menos 7 mil mortos, concentrados majoritariamente em território iraniano e no Líbano. A herança desse embate violento projeta sombras políticas sobre os governantes de ambos os lados.
Nos Estados Unidos, a concessão abre flancos para que Trump seja duramente questionado por alas mais radicais de seu próprio partido, que defendiam uma postura militar inflexível. Já em Teerã, a cúpula do regime enfrenta uma contagem regressiva perigosa: sem o alívio imediato da crise econômica após a destruição provocada pelos bombardeios, a insatisfação popular pode rapidamente se converter em novas ondas de protestos nas ruas do país.










