Ituri, República Democrática do Congo – Na fronteira leste da República Democrática do Congo, a floresta e as jazidas de coltan escondem muito mais do que milícias armadas. Elas abrigam hoje o avanço silencioso de um velho inimigo: o vírus ebola. Enquanto as atenções do planeta se voltam para disputas militares internas, uma combinação asfixiante de guerras regionais e o encolhimento do financiamento internacional em saúde pavimentou o caminho para que o surto saísse de controle na África.
O coração dessa crise pulsa na província de Ituri, no nordeste congolês, a quase 2 mil quilômetros da capital, Kinshasa. A região concentra assustadores 93% dos 676 casos confirmados de ebola no país, onde 136 óbitos já foram registrados até 10 de junho. Disputada por cerca de cem facções paramilitares que brigam pelo controle de minérios estratégicos para a tecnologia global, a zona transformou-se em território sem lei. O grupo rebelde M23, financiado pela vizinha Ruanda sob as ambições do presidente Paul Kagame, domina áreas críticas onde equipes médicas simplesmente não conseguem entrar. Um pacto de paz costurado em junho de 2025 pelo governo americano não passou de uma folha de papel sem efeito prático.
O recuo financeiro e a crise de governança
O isolamento dos doentes não é apenas físico, é geopolítico. O desmantelamento da resposta médica acelerou com o recuo dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Simultaneamente, o orçamento norte-americano de apoio ao Congo despencou cerca de 90%, caindo de US$ 1,41 bilhão em 2024 para US$ 0,14 bilhão projetados para 2026. Embora Washington reivindique o posto de maior doador individual contra a epidemia ao direcionar US$ 338 milhões para Congo, Uganda e Sudão do Sul, analistas apontam que a priorização de acordos bilaterais em detrimento de órgãos multilaterais enfraquece a governança de saúde global, atrelando a ajuda a interesses comerciais sobre terras raras.
Esta asfixia é reforçada pelo desvio de recursos na Europa. Pressionados a elevar seus orçamentos de defesa para uma faixa de 2% a 5% do PIB em 2025, os países europeus e o Canadá registraram uma alta de 20% em despesas militares na comparação com 2024. O preço dessa blindagem interna foi o corte substancial nas verbas de assistência externa enviadas por nações como França e Reino Unido. No meio desse fogo cruzado orçamentário, a União Europeia liberou uma ajuda emergencial de 15 milhões de euros para o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África). Contudo, a burocracia e as mudanças de canais de repasse recomendam cautela na fiscalização desse dinheiro.
Laboratórios vazios e profissionais sob mira
A escassez na linha de frente é dramática: três laboratórios congoleses essenciais ficaram sem insumos básicos para rodar exames de detecção da doença. Além das fronteiras do Congo, o vírus atingiu a vizinha Uganda, que registrou 19 infecções e duas mortes até 11 de junho — embora o país vizinho não tenha reportado novos casos por seis dias consecutivos. Nos dois territórios combinados, apenas 37 pessoas conseguiram se recuperar.
A União Africana e a OMS tentam agora mobilizar um plano emergencial de US$ 517 milhões para os próximos seis meses. O obstáculo mais complexo, contudo, é a falta de capital humano: faltam epidemiologistas, médicos e técnicos dispostos a trabalhar em zonas sob controle miliciano. Enquanto a epidemia permanecer confinada ao território africano, a resposta global tende a se mover em ritmo lento, ignorando o perigo que cresce na floresta.










