Cariacica (ES) – O recuo imediato no preço do barril de petróleo, que despencou de US$ 100 para a casa dos US$ 80 na noite de domingo, dia 14, foi o primeiro sinal prático do impacto do ensaio de entendimento entre Estados Unidos e Irã. O avanço diplomático, desenhado para se consolidar com a assinatura de um memorando de entendimentos na próxima sexta-feira, dia 19, em Genebra, promete dar um novo ritmo à economia global, mas carrega um forte componente de sobrevivência política para os líderes envolvidos.
O documento que será assinado na Suíça estabelece as bases para negociações mais profundas, em um processo que deve se estender por mais 60 dias em uma segunda rodada de conversas. Para além dos termos técnicos, o movimento mexe diretamente no tabuleiro eleitoral norte-americano. O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Menezes, avalia que o presidente Donald Trump busca oxigênio político diante da opinião pública. Com a gasolina acumulando uma alta de 46% nos Estados Unidos ao longo de quase quatro meses de conflito, a prioridade da Casa Branca é baratear o combustível em até três meses, pavimentando um caminho mais seguro para as eleições internas do país. Em contrapartida, os iranianos asseguram uma posição de força com o controle do estratégico Estreito de Ormuz.
O fator Israel no xadrez geopolítico
Se Washington tenta estancar o desgaste interno e o Irã consolida sua influência regional, a costura do acordo gera forte ruído em Tel Aviv. O governo de Israel já se posicionou formalmente contra a iniciativa de paz. De acordo com a análise de Menezes, o fim das hostilidades cria um cenário extremamente espinhoso para o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Fragilizado politicamente e enfrentando acusações criminais na Justiça, o premiê via no estado de beligerância um escudo contra pressões internas. Sem o conflito, Netanyahu terá de encarar de frente os tribunais e a própria população israelense, que exige sua saída do cargo.
Reflexos na inflação e na economia brasileira
No campo econômico, a estabilização do fornecimento de energia deve desinflar as pressões de custos mundiais. O professor de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marcelo Curado, pondera que, mesmo se a infraestrutura petrolífera iraniana — já castigada por anos de sanções e embargos americanos — demorar a operar plenamente, o mercado internacional conta com outros grandes produtores para suprir o abastecimento. A redução das incertezas sobre os combustíveis é o principal motor para o recuo das projeções de inflação.
Esse alívio tende a cruzar o Atlântico e alcançar o Brasil. Uma menor pressão sobre as commodities energéticas e a normalização do mercado de fertilizantes — insumo vital para o agronegócio brasileiro que vinha sofrendo com a escalada de preços — abrem espaço para uma melhora nas projeções domésticas. O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, elaborado com dados anteriores ao anúncio do memorando, projetava a inflação brasileira em 5,30% e a taxa Selic em 13,75% para o ano de 2026. Para Curado, a consolidação da paz no Oriente Médio ajuda a reduzir as expectativas de juros e inflação por aqui, mas o cenário ainda dependerá da avaliação de variáveis internas do país.











