Nova York, Estados Unidos – O futebol transborda as quatro linhas, funcionando como uma ferramenta capaz de derrubar regimes autoritários e fomentar a solidariedade entre os esquecidos. Essa foi a mensagem central transmitida por Zohran Mamdani, prefeito de Nova York, durante o último sábado, 13 de junho. Em pleno clima de Copa do Mundo nos Estados Unidos, o gestor aproveitou a movimentação em torno da estreia brasileira contra Marrocos, no MetLife Stadium, para resgatar a trajetória de Sócrates e o impacto histórico da Democracia Corinthiana.
Mamdani, que assumiu o comando da maior cidade norte-americana em janeiro deste ano, utilizou as redes sociais para registrar sua visão sobre o esporte. Para o prefeito de 34 anos, a celebração do torneio vai além dos números no placar ou da precisão dos desarmes. Existe um valor social que, segundo ele, oferece pertencimento a milhões de pessoas ao redor do globo, servindo como um respiro e, por vezes, um ponto de virada diante de crises profundas.
Ao abordar o período em que o Brasil vivia sob o cerco de uma ditadura militar repressiva, Mamdani destacou o papel de Sócrates. O craque, que liderou a seleção na Copa de 1982, foi apontado pelo prefeito como um símbolo de resistência dentro do Corinthians. Naquele ambiente, o ídolo e seus companheiros — como Wladimir, Casagrande, Zé Maria, Biro-Biro e Zenon — encabeçaram um experimento de autogoverno revolucionário: o peso do voto era igualitário, do artilheiro ao funcionário da lavanderia do clube.
A Democracia Corinthiana, que floresceu após a eleição de Waldemar Pires para a presidência do clube em 1982, tornou-se um fenômeno cultural. Jogadores e demais colaboradores decidiam em conjunto desde os horários de treino até os detalhes das concentrações. A influência da equipe extrapolou o gramado, carregando nas camisas mensagens como a campanha pelas “Diretas Já”, um marco na luta pela redemocratização do país enquanto o regime ditatorial ainda impunha censura e violência.
O prefeito relembrou com ênfase o engajamento dos atletas, que entravam em campo vestindo jaquetas com frases como “Quero votar no meu presidente”. Para Mamdani, essa postura foi um exemplo vital de como o esporte pode espelhar os desejos por liberdade de um povo. O movimento, contudo, começou a perder fôlego em 1984, com a saída de peças fundamentais como Casagrande, rumo ao São Paulo, e a transferência de Sócrates para a Fiorentina, na Itália.
O histórico vitorioso do grupo, contudo, consolidou-se com as conquistas do Campeonato Paulista em 1982, 1983 e 1988, além do primeiro título do Campeonato Brasileiro do clube, em 1990.
A fala de Mamdani aconteceu justamente no dia em que o Brasil empatou em 1 a 1 com o Marrocos, em duelo válido pelo Grupo C do Mundial. Figura emblemática na política nova-iorquina, o prefeito — primeiro muçulmano a ocupar o cargo e o gestor mais jovem desde 1892 — é conhecido por seu posicionamento socialista e pelas críticas abertas à administração de Donald Trump. Ao trazer o debate para o futebol, ele reforçou a ideia de que, mesmo nos 90 minutos de uma partida, o esporte possui uma inegável carga política capaz de unir gerações e fronteiras.






