Rio de Janeiro (RJ) – Em 2 de maio de 1994, os bastidores do futebol brasileiro foram sacudidos pelo sequestro do pai do craque Romário — um drama que hoje repousa, detalhado passo a passo, nos arquivos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ). Três homens armados renderam Edevair de Souza Faria na Vila da Penha, zona norte carioca, logo após ele deixar seu bar, o “Garota do Quitungo”. Na época, o atacante brilhava no Barcelona e avisou: não jogaria a Copa do Mundo nos Estados Unidos se o pai não fosse libertado. O resgate exigido era de US$ 7 milhões, mas a mobilização policial — que contou até com a ajuda informal de chefes do tráfico local, fãs do jogador — localizou o cativeiro em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Seu Edevair saiu ileso após seis dias de cativeiro, sem pagamento de resgate, permitindo que o filho seguisse viagem para garantir o tetracampeonato mundial.
Esse processo histórico é apenas uma das preciosidades mantidas pela Divisão de Gestão de Documentos da corte fluminense. Outra relíquia que demorou a ser devidamente mapeada reconta o sumiço da Taça Jules Rimet. Ladrões levaram o troféu em dezembro de 1983 da antiga sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na Rua da Alfândega, no centro da capital. Ironicamente, a papelada que detalha da investigação à condenação dos envolvidos passou anos sem identificação precisa nas prateleiras do tribunal, como se carregasse a mesma sina de azar do troféu de ouro conquistado em definitivo pelo Brasil em 1970.
A batalha pelas figurinhas de 1970
O acervo também expõe como as disputas judiciais moldaram as regras do esporte no país. Em 1988, o lançamento do álbum de figurinhas “Heróis do Tri”, que homenageava as conquistas de 1958, 1962 e 1970, gerou revolta entre os ex-atletas. A Editora Abril produziu o álbum sem autorização dos retratados, motivando um processo movido por ídolos como Jairzinho, Carlos Alberto, Altair, Amarildo, José Ferreira Franco, Moacir e Joel contra a editora e a CBF por uso indevido de imagem. A ação tornou-se um marco jurídico crucial para consolidar o direito de imagem dos atletas profissionais, servindo de base para a futura Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998).
Desavenças entre craques
Até as polêmicas extracampo de grandes camisas 10 e 9 foram parar nos tribunais do Rio. Em 1999, Zico acionou a Justiça contra Romário devido a declarações e caricaturas consideradas ofensivas que o “Baixinho” exibia em seu estabelecimento comercial. O processo por danos morais terminou com vitória para Zico e gerou repercussões que mostram como a rivalidade e o ego das estrelas do gramado também movimentavam os balcões do judiciário.
A organização desses documentos exige um trabalho minucioso de resgate histórico. Identificar processos antigos e catalogá-los de forma correta permite que pesquisadores e o público compreendam as transformações das carreiras dos atletas e os contextos políticos de cada época. Histórias que envolvem desde a trajetória do futebol feminino até debates sociais encontram-se registradas nas páginas amareladas das ações judiciais, mantendo vivas memórias que ajudam a decifrar a identidade brasileira através do esporte.











