Brasília (DF) – O Palácio do Planalto transformou-se no palco de uma ofensiva diplomática nesta quarta-feira, dia 3. Ao reunir seu ministério, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que a estratégia do país mudou: diante das novas barreiras impostas pela política comercial estadunidense, o governo buscará compradores dispostos a negociar, contornando a dependência do mercado norte-americano.
O clima é de insatisfação. A movimentação ocorre na esteira do anúncio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que, na segunda-feira, dia 1º, propôs uma taxação de 25% sobre parcela das mercadorias brasileiras. Essa medida é o ápice de uma investigação iniciada há um ano pela gestão de Donald Trump, focada em alegações de práticas comerciais desleais.
Um ponto sensível da disputa envolve o Pix. O governo americano sustenta que a ferramenta brasileira estaria prejudicando injustamente empresas locais do setor de pagamentos eletrônicos, como Visa, MasterCard e o Whatsapp Pay. A justificativa foi recebida com ressalvas em Brasília, especialmente porque um canal de diálogo havia sido aberto recentemente.
Lula mencionou um acerto feito na Casa Branca, em maio, quando ele e Trump estipularam um prazo de 30 dias para uma solução negociada. Na época, o presidente brasileiro apresentou documentos detalhando que, nos últimos 15 anos, o superávit comercial foi largamente favorável aos Estados Unidos, atingindo a cifra de US$ 415 bilhões. O anúncio da nova taxação soou, para o Planalto, como uma surpresa desprovida de sentido diplomático.
Em resposta, o governo federal adota uma postura de distanciamento da antiga submissão. Sem citar nomes de parceiros específicos, a ordem é diversificar. Caso os Estados Unidos não desejem manter o fluxo de compras, outros mercados serão buscados.
A crise forçou um ajuste na agenda internacional do país. Lula confirmou que estará presente na reunião do G7 em junho, na França, a convite de Emmanuel Macron. O que antes era uma ausência planejada tornou-se um palanque estratégico. O objetivo é atuar em defesa do multilateralismo e do fortalecimento das Nações Unidas, combatendo o que classifica como desmonte institucional.
A preocupação técnica, no entanto, é real. Levantamento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços aponta que a ameaça tarifária coloca em risco cerca de 21% do volume total de exportações brasileiras para aquele país. Existe, contudo, uma janela temporal para contestações. O governo brasileiro e os setores afetados possuem até o dia 15 de julho para apresentar suas manifestações ao USTR, antes da efetiva aplicação das sanções.
Por ora, o discurso é de soberania. A orientação aos ministros reflete o desejo de encerrar o que o governo chama de postura de vira-lata, estabelecendo um padrão de relacionamento pautado por respeito mútuo, independente do tamanho ou da força política das grandes potências globais.












