Rio Verde (GO) – Durante uma agenda no Hospital Universitário de Rio Verde, em Goiás, realizada nesta terça-feira (2), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom contra o senador Flávio Bolsonaro. O chefe do Executivo afirmou abertamente que o parlamentar teria solicitado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, uma interferência direta no funcionamento do Pix, o sistema de transferências instantâneas que revolucionou o mercado brasileiro.
A rusga diplomática e política tem raízes no encontro realizado no final de maio, em Washington. Na ocasião, Flávio Bolsonaro esteve na Casa Branca acompanhado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Pouco tempo depois, o cenário mudou de figura: o governo americano rotulou grupos como o PCC e o Comando Vermelho como terroristas e divulgou um relatório questionando a lisura do Pix. O documento alega que a ferramenta prejudica empresas como Mastercard, Visa e o Whatsapp Pay, propondo ainda um aumento na taxação de mercadorias brasileiras.
Lula, que já havia discursado mais cedo em Catalão, não poupou críticas ao senador. Em Rio Verde, voltou a tocar no assunto, classificando o comportamento do parlamentar como covardia diante da negação de Flávio sobre o conteúdo da conversa com o mandatário norte-americano. O petista sustentou que, ao buscar apoio externo para atingir o governo, o clã Bolsonaro coloca em xeque a estabilidade do agronegócio e de setores vitais da economia brasileira, que temem uma alíquota de 25% sobre suas exportações para os EUA.
O impacto financeiro é motivo de alerta técnico. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que a ameaça tarifária coloca em risco cerca de 21% de tudo o que o Brasil vende para o mercado americano. Em sua defesa, o senador Flávio Bolsonaro rebateu as acusações pelas redes sociais, sustentando que, na verdade, teria solicitado a Trump justamente o oposto: que não houvesse taxação sobre os produtos nacionais, reforçando a posição em uma carta oficial entregue ao governo estrangeiro.
Enquanto o clima esquenta na política, instituições financeiras tentam blindar a imagem do sistema de pagamentos. A Federação Brasileira dos Bancos reforçou, por nota, que o Pix funciona como infraestrutura, não como produto de mercado. A entidade sustenta que o sistema fomenta a competitividade e mantém portas abertas para qualquer player, sem as barreiras comerciais alegadas por interesses americanos.
A tensão diplomática contrastou com o clima do evento em Rio Verde. Lula visitou a unidade hospitalar que se tornou referência ao introduzir, em janeiro, o sistema cirúrgico robótico Da Vinci X, tecnologia que permitiu realizar cirurgias de próstata de alta precisão pelo SUS. Defendendo a universalidade do sistema de saúde, o presidente aproveitou o momento para compartilhar uma experiência pessoal, mencionando o tratamento de um câncer de pele no couro cabeludo.
Entre a geopolítica e a gestão pública, o discurso deixou clara uma estratégia narrativa: distanciar-se da imagem do bolsonarismo enquanto busca ancorar o suporte do setor produtivo e da saúde pública sob a égide da soberania nacional e da eficiência do sistema brasileiro.











