Rio de Janeiro (RJ) – O quarto dia do julgamento sobre a morte do menino Henry Borel trouxe à tona relatos de uma história que remonta a mais de uma década. Naquela quinta-feira (28), Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, hoje com 18 anos, subiu ao plenário do 2º Tribunal do Júri, no Rio de Janeiro, para narrar os traumas vividos enquanto sua mãe mantinha um relacionamento com o então vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho.
O depoimento, realizado sem a presença física do réu no recinto a pedido da jovem, detalhou uma infância marcada por sessões de tortura psicológica e física. Segundo a estudante de turismo, as investidas ocorriam quando ela tinha entre 3 e 7 anos. Com a voz embargada, ela descreveu cenas de brutalidade que incluíam golpes na cabeça, torção de braços e episódios de afogamento em uma piscina na residência, onde era mantida submersa pelo peso do pé de Jairinho sobre sua barriga.
“Ele me soltava, eu subia para respirar e, logo em seguida, voltava a me afundar”, relembrou a testemunha. O réu, de acordo com o relato, impunha um silêncio rigoroso sob a justificativa de que ela não deveria causar tristeza à própria mãe. Quando questionada sobre hematomas ou possíveis marcas das agressões, Kaylane explicou que o ex-vereador utilizava estratagemas para ocultar os sinais, instruindo-a a atribuir dores no corpo às suas aulas de jiu-jítsu.
O impacto psicológico ia além da dor física. A jovem descreveu o ambiente hostil em que ouvia do próprio Jairinho que sua existência era um empecilho para o casal. “Ele falava que seria melhor se eu não estivesse ali, que a vida da minha mãe seria mais fácil sem a minha presença”, contou. A tensão era tamanha que a menina, ainda criança, desenvolveu reações fisiológicas de repulsa ao ouvir o motor do carro do ex-namorado da mãe se aproximar.
A mãe da estudante, Natasha de Oliveira Machado, também prestou esclarecimentos e confirmou ter desconfiado de situações estranhas durante o namoro. Em um episódio noturno, ela teria simulado ingestão de remédios apenas para flagrar o então parlamentar retirando a filha de sua cama durante a madrugada. Natasha, que identificou perseguição e violência psicológica após o término, revelou ter buscado o pai de Henry Borel, Leniel, para relatar o histórico após ver a repercussão pública do caso da criança.
Kaylane, por sua vez, admitiu conviver com um sentimento de culpa paralisante por anos. Para ela, o arrependimento por não ter revelado o terror vivido na infância mais cedo serve agora como um combustível para colaborar com a Justiça, na esperança de impedir novos ciclos de violência. “Eu evitava me lembrar para não ter de reviver tudo aquilo”, confessou.
O julgamento retomou seus trabalhos em um dia atípico. Com um atraso inicial causado por mal-estar de um dos jurados e o retorno do advogado Fabiano Lopes ao corpo de defesa, após ter sofrido um infarto dias antes, o processo continua a dissecar as entranhas de um crime que chocou o país. O réu enfrenta acusações que variam de homicídio qualificado a tortura, enquanto Monique Medeiros, mãe da vítima e também ré no processo, acompanhou os relatos no tribunal.











