Rio de Janeiro (RJ) – O Brasil enfrenta uma batalha que vai além do vício em tabaco. A indústria da nicotina, cada vez mais focada em atrair adolescentes e jovens com produtos aromatizados, é o novo alvo de um alerta emitido pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Em um evento realizado na última quinta-feira (28) alusivo ao Dia Mundial sem Tabaco, o diretor-geral do INCA, Roberto Gil, defendeu uma ação mais contundente contra essa prática.
Gil expressou surpresa com a persistência da desinformação sobre um produto que, segundo ele, tem potencial para matar metade de seus usuários. “Um produto que mata um em cada dois usuários, isso não é um produto que podia existir”, declarou o diretor. A preocupação do Ministério da Saúde recai sobre o uso de aromatizantes e dispositivos eletrônicos, como vapes e pods, que, ao adicionarem sabores doces, refrescantes e cores, tornam o primeiro contato com o tabaco mais palatável e “atrativo”.
A campanha deste ano, com o tema “Desmascarando o apelo – combatendo a dependência de nicotina e tabaco”, busca expor as táticas da indústria fumageira para captar novos consumidores, especialmente entre crianças e jovens. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) revelam que cerca de 2,6 milhões de adolescentes de 13 a 15 anos no continente americano consomem tabaco, e dois milhões utilizam cigarros eletrônicos. No Brasil, um estudo apresentado pelo INCA em 2025 estima que os gastos com doenças relacionadas ao tabagismo possam chegar a R$ 153 bilhões anuais.
Vera Luiza da Costa e Silva, secretária-executiva da Comissão Nacional para a Implementação da Convenção-Quadro da OMS para o Controle do Tabaco, explicou que há uma transição global de cigarros tradicionais para produtos com maior apelo tecnológico, como nicotina sintética e sais de nicotina, visando engajar as futuras gerações na dependência. O tabagismo, alertou ela, tem se tornado uma “doença pediátrica”, afetando cada vez mais indivíduos com menos de 20 anos.
Uma regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 2012 proíbe aditivos que conferem sabor, aroma, cores e outras propriedades que aumentem a palatabilidade em produtos de tabaco. Contudo, a indústria contesta essa norma no Judiciário. Um estudo divulgado este ano pelo INCA, com base em dados da própria Anvisa, demonstra que metade das marcas de cigarros manufaturados registradas no Brasil em 2025 sequer continha os aditivos proibidos, refutando o argumento de inviabilidade da produção. “O que não há é interesse mercadológico das indústrias de tabaco de colocar um produto que não tem esses aromas e sabores”, pontuou o pesquisador André Zsklo, coautor do estudo.
Roberto Gil reforça a necessidade de o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir a produção desses aditivos para solidificar a validade da norma em território nacional e evitar novas disputas judiciais. A coordenadora da Política de Prevenção e Controle do Câncer Infantojuvenil do Ministério da Saúde, Suyanne Camille Caldeira Monteiro, enfatizou que não existe dispositivo eletrônico para fumar seguro, especialmente para adolescentes e jovens em fase de construção de identidade e suscetíveis à influência das redes sociais.
O tabaco é um fator de risco comum para as principais Doenças Crônicas Não Transmissíveis, incluindo câncer, diabetes, doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas. No Brasil, o INCA lidera as ações do Programa Nacional de Controle do Tabagismo, buscando prevenir a iniciação, promover a cessação e proteger a população da exposição à fumaça do tabaco.












