Venda Nova do Imigrante (ES) – O pacote de mudanças estruturais apresentado na última quinta-feira (18) durante a Assembleia Nacional de Cuba não representa uma guinada em direção ao livre mercado. Para especialistas que acompanham a realidade da ilha, as novas diretrizes funcionam como um mecanismo de sobrevivência diante de um cerco econômico que se fecha sobre Havana. A interpretação é que o governo tenta, com urgência, criar pequenas válvulas de escape para uma economia asfixiada pela falta de divisas.
A estratégia cubana foca na flexibilização de investimentos estrangeiros e na ampliação da autonomia de empresas estatais. O objetivo é claro: garantir recursos para a importação de itens essenciais e manter o funcionamento básico do país. Maicon Cláudio da Silva, economista e pesquisador da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), define as ações como tentativas de manter a operação do Estado sob condições extremas. Para ele, as medidas são uma continuidade do que já vinha sendo desenhado desde a reforma monetária de 2021.
O cenário é agravado pela natureza do bloqueio dos EUA, que vai muito além das fronteiras bilaterais. O controle norte-americano sobre o sistema financeiro global impede que Cuba flua com liberdade no comércio internacional. Navios que entregam mercadorias em portos cubanos enfrentam restrições em águas americanas, e empresas que mantêm parcerias com Havana correm o risco de represálias pesadas. Essa pressão custou a saída de grandes marcas, incluindo operadoras de cartões de crédito como Visa e Mastercard, além de companhias aéreas e redes hoteleiras, a exemplo das espanholas Meliá e Iberostar.
A fragilidade econômica cubana encontra sua raiz na dependência histórica do turismo e da exportação de serviços médicos. Com a Casa Branca exercendo pressão diplomática para que países rompam contratos com médicos da ilha, uma das principais fontes de moeda estrangeira foi severamente comprometida. A situação atingiu um ponto crítico no final de 2025, quando o endurecimento de restrições navais cortou o fornecimento de petróleo vindo da Venezuela, deixando a ilha em um desabastecimento severo por meses.
Embora as novas políticas prevejam a descentralização política e liberalização em setores como o imobiliário, descartar o modelo socialista não está no horizonte. A lógica é simples: sem liberdade comercial, não há como uma burguesia florescer ou acumular capital na ilha. A comparação com o chamado “socialismo de mercado” chinês também não se sustenta no caso cubano. Enquanto a China se tornou um pilar estratégico da economia americana, contando com fábricas de gigantes como a Tesla, Cuba permanece excluída dessa rede global de suprimentos.
O resultado prático para os cerca de 11 milhões de habitantes é uma rotina de sacrifícios. A população de Havana enfrenta o agravamento de problemas estruturais: apagões constantes, inflação de preços básicos e uma redução drástica na oferta de transporte público e alimentos subsidiados. Enquanto o governo debate mudanças fiscais e cambiais, a realidade nas ruas aponta para um dos momentos mais desafiadores desde o início do isolamento econômico, que já atravessa sete décadas.









