Paris, França – Durante a cúpula do G7 realizada na França, as vozes de Brasília e Nairóbi elevaram o tom contra o diagnóstico das potências ocidentais. Enquanto o grupo composto por Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Canadá classificava a ascensão chinesa como um fator de desequilíbrio para a economia global, Luiz Inácio Lula da Silva e William Samoei Ruto adotaram uma postura de defesa pragmática. Para o Brasil e o Quênia, o que Washington e Bruxelas rotulam como ameaça é, na prática, o principal motor de desenvolvimento disponível para o Sul Global.
O presidente brasileiro foi direto ao ponto diante dos líderes das economias mais ricas do mundo. Em sua leitura, a ausência de investimentos substanciais por parte de americanos e europeus na América Latina e na África deixa um vácuo que Pequim tem ocupado com eficiência. Para os países em desenvolvimento, o que resta não é o dilema entre ideologias, mas a escolha entre a estagnação ou a parceria. O líder queniano corroborou a tese, tratando a relação com a China como uma necessidade estratégica: na falta de alternativas ocidentais competitivas, ter Pequim como sócio é a única saída viável.
A tensão por trás dos números
O desconforto do G7 está documentado. As potências ocidentais apontam um superávit chinês projetado em US$ 1,2 trilhão para 2025, impulsionado por um consumo interno considerado insuficiente. O grupo também sinalizou preocupação com a hegemonia chinesa em setores nevrálgicos, como a produção de veículos elétricos e o fornecimento de terras raras. A crítica se estende à política cambial de Pequim, com os ocidentais sugerindo que a desvalorização artificial do renminbi confere uma vantagem injusta às exportações do país.
Em resposta, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian, refutou as acusações nesta quinta-feira (18). Ele instou o grupo a respeitar as normas internacionais de mercado e criticou o que chamou de imposição de regras por um círculo restrito de nações, classificando o comportamento do G7 como uma interferência indesejada na ordem comercial global.
Posicionamento brasileiro
A participação brasileira no evento seguiu uma linha de seletividade. Das nove declarações conjuntas apresentadas, o Brasil validou apenas três. O governo brasileiro alinhou-se ao G7 em pautas específicas, como o combate ao câncer, a proteção de menores no ambiente digital e o enfrentamento ao narcotráfico. Contudo, o governo vetou a assinatura de um documento sobre drogas por discordar frontalmente da vinculação entre o tráfico e o terrorismo. A avaliação diplomática brasileira é que tal associação poderia servir como pretexto para intervenções externas indesejadas.
Ao recusar a adesão integral aos textos do G7, o Itamaraty reforçou que a visão de mundo do grupo não reflete, necessariamente, as prioridades e a soberania das nações em desenvolvimento. O episódio expõe um racha diplomático que transcende a economia, revelando o esforço de países como Brasil e Quênia para manter autonomia em um cenário de crescente disputa geopolítica entre os blocos tradicionais e a potência chinesa.










