Madri, Espanha – O cenário político espanhol vive dias de turbulência com a oficialização de uma greve geral convocada pelas duas maiores centrais sindicais do país, a UGT e a CCOO. Marcada para o dia 11 de novembro, a paralisação de 24 horas surge como uma resposta direta à escalada na crise habitacional, que tem levado milhares de manifestantes às ruas diariamente desde o dia 23 de setembro. O movimento atende a uma demanda da Confederação de Sindicatos de Inquilinas, que exige mudanças estruturais para garantir o acesso à moradia digna.
A decisão de interromper as atividades ocorre em um momento de extrema fragilidade institucional. Na segunda-feira, dia 5, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convocou eleições legislativas antecipadas para 29 de novembro. A medida foi tomada apenas 48 horas depois de o Parlamento espanhol rejeitar decretos governamentais voltados justamente para o setor imobiliário, sinalizando o esgotamento das tentativas do Executivo em conter as tensões sociais envolvendo ações de despejo.
Pepe Álvarez, secretário-geral da UGT, justificou a convocação sob o lema de salários dignos para moradias dignas. Para o dirigente sindical, a mobilização não é apenas uma reação aos protestos que ganharam fôlego nas últimas semanas, mas um compromisso com os coletivos que têm liderado a resistência nas cidades espanholas. Esta será a primeira greve de âmbito nacional no país desde 2012, marcando um distanciamento notável da postura dos sindicatos desde que o governo socialista assumiu o comando em 2018.
O anúncio provocou reações imediatas nos bastidores da economia e da política. Antonio Garamendi, presidente da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais, contestou a legitimidade da greve. Para o representante dos empresários, a pauta não possui natureza laboral, o que tornaria o movimento ilegal. Garamendi classificou a iniciativa como uma manobra de caráter político e eleitoral, sugerindo que o impacto da paralisação visa atingir a oposição tanto quanto o próprio governo.
A oposição, liderada pelo Partido Popular (PP) e pelo partido de extrema-direita Vox, também se posicionou de forma crítica. Borja Sémper, porta-voz do PP, sugeriu que a greve serve aos interesses de Pedro Sánchez, funcionando como um movimento estratégico para favorecer a base socialista na disputa eleitoral que se aproxima. O partido de direita ressaltou que a mobilização surge apenas após oito anos de gestão de Sánchez, apontando a disparada nos preços dos imóveis e dos aluguéis como um dos maiores fracassos da administração atual.
Em sua análise sobre o episódio, o primeiro-ministro Pedro Sánchez adotou um tom de cautela. Ao ser questionado sobre o impacto da paralisação, o líder do PSOE afirmou que o movimento atinge diretamente a vida dos trabalhadores e suas famílias. Sánchez optou por não confrontar os organizadores, limitando-se a declarar que cabe ao Executivo apenas o respeito ao exercício desse direito constitucional, em um momento em que a Espanha se prepara para definir seu futuro nas urnas.










