Khan Yunis, Palestina – O ataque do Hamas ao sul de Israel, deflagrado em 7 de outubro de 2023, deixou um rastro que ultrapassa as fronteiras da Faixa de Gaza. Ao completar três anos do episódio que vitimou cerca de 1,2 mil pessoas, o Oriente Médio enfrenta uma transformação radical em sua arquitetura de segurança. A subsequente operação militar israelense, que resultou em mais de 74 mil mortes e devastou centros urbanos como Rafah e Khan Yunis, funcionou como um catalisador para a reconfiguração de alianças e o desmonte de velhas estruturas de poder na Ásia Ocidental.
A instabilidade consolidou-se em uma sucessão de conflitos diretos e indiretos. O cenário regional incluiu a queda do governo de Bashar al-Assad na Síria, o embate entre Israel e o Hezbollah no Líbano, além de um confronto direto envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã. A tensão também atingiu fluxos comerciais críticos, com o fechamento do Estreito de Ormuz e a retomada das hostilidades entre houthis e a Arábia Saudita.
Para analistas, o 7 de outubro funcionou como um ponto de inflexão. O tradicional bloco pró-EUA fragmentou-se diante de estratégias distintas: enquanto a Arábia Saudita adotou uma postura mais contida, os Emirados Árabes Unidos alinharam-se diretamente a Israel e Washington na ofensiva contra Teerã. Essa divergência custou caro à unidade petroleira, culminando na saída dos Emirados da Organização dos Países Produtores de Petróleo.
Em agosto de 2026, uma nova peça surgiu no tabuleiro com o Acordo de Defesa Conjunta de Meca. Unindo Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, o pacto estabelece um compromisso de defesa mútua. Curiosamente, essa coalizão evita classificar o Irã como uma ameaça existencial, marcando um distanciamento das agendas puramente ocidentais e sugerindo a busca por uma política de não alinhamento entre as grandes potências globais como EUA, China e Rússia.
A questão palestina, que estava sendo deixada em segundo plano pelos Acordos de Abraão, retornou ao epicentro do debate. A intenção de normalização entre Riad e Tel Aviv foi paralisada pela exigência de uma solução definitiva para os palestinos. Paralelamente, observa-se a erosão do chamado Eixo da Resistência, enfraquecido pela derrocada de Assad e pelas baixas do Hezbollah e do Hamas.
Há quem identifique, sob essa movimentação, o projeto da Grande Israel, que visa a expansão territorial de Tel Aviv e a manutenção de uma ordem regional baseada no conflito contínuo. Esse cenário beneficia, sob uma ótica econômica, a robusta indústria bélica e tecnológica israelense. O conflito também impacta grandes projetos logísticos, como o Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa, que visava reduzir a dependência europeia da Rússia e da China, agora em compasso de espera diante da nova realidade bélica na região.
O equilíbrio de forças hoje é definido pela coexistência de três blocos distintos: os aliados estreitos de Washington, como Israel e Emirados; o grupo intermediário de Riad, Ancara e Islamabad; e o Eixo da Resistência, cuja influência estatal parece hoje limitada essencialmente ao Irã. A ocupação prolongada da Cisjordânia e as políticas de Jerusalém Oriental, que antecederam a explosão do conflito em 2023, seguem como variáveis cruciais que explicam a volatilidade desta nova era no Oriente Médio.









