Houston, Estados Unidos – O conceito de regista, importado da tradição tática italiana, define um jogador que dita o compasso da partida a partir de uma zona recuada do meio-campo. É o arquiteto que dita o ritmo, posição ocupada por nomes históricos como Andrea Pirlo, no Milan, ou Toni Kroos, sob comando de Carlo Ancelotti no Real Madrid. Agora, essa engrenagem encontrou seu rosto brasileiro em Bruno Guimarães.
O volante, que defende o Newcastle United, transformou-se no pilar central desta seleção. Se o gol ainda não saiu, a precisão na criação compensa a ausência nas redes. Com quatro assistências acumuladas na atual edição da Copa do Mundo, ele se isolou no topo desse ranking. O último brilho veio na segunda-feira, dia 29, em Houston, Estados Unidos. Foi dos pés dele que partiu o passe cirúrgico para Gabriel Martinelli garantir o triunfo por 2 a 1 sobre o Japão, resultado que assegurou o passaporte brasileiro para as oitavas de final.
A influência de Guimarães transcende o último passe. Naquela mesma noite em Houston, os números da FIFA desenharam um mapa de esforço impressionante: ele foi o brasileiro que mais buscou o jogo, apresentando-se 99 vezes para receber a bola, e percorreu 12,1 quilômetros durante os noventa minutos. Sua eficácia no terço final também impressiona, com 35 passes certos de 39 tentados no campo de ataque.
O retrospecto nesta Copa é consistente. A série começou no duelo de estreia contra Marrocos, em Nova Jersey, onde serviu Vinícius Júnior para selar o empate em 1 a 1. Na terceira rodada, o repertório foi ainda mais vasto, com dois passes para gol — um para Vinícius Júnior e outro para Matheus Cunha. Tamanha entrega não passa despercebida por Ancelotti, que enalteceu o coração e a continuidade do camisa 8 em campo.
Olhando para os livros de história, o feito do jogador ganha contornos de raridade. No século XXI, ele se tornou apenas o quarto atleta a somar quatro assistências em uma única edição de Mundial, igualando marcas estabelecidas por Michael Ballack em 2002, Francesco Totti em 2006 e Juan Cuadrado em 2014. No entanto, o objetivo agora é mais ambicioso: faltam apenas dois passes para o gol para que Bruno Guimarães empate o recorde absoluto de uma única edição, estabelecido pelo Rei Pelé em 1970.
O desafio está posto. Entre a organização tática e a finalização, o volante brasileiro carrega a responsabilidade de quem dita o destino de um time dentro das quatro linhas. Se o recorde do maior jogador de todos os tempos é uma meta ousada, a forma como o atleta tem regido o meio-campo brasileiro sugere que, ao menos, o caminho está bem traçado.







