Venda Nova do Imigrante (ES) – A rotina de estradas fechadas e prateleiras vazias que sufocou a Bolívia por quase dois meses começou a ceder. No último domingo, dia 21, o país amanheceu com apenas 31 pontos de interrupção nas rodovias de La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz — um contraste drástico para quem enfrentou picos de mais de 80 bloqueios simultâneos nas semanas anteriores. No decorrer do dia, o painel de monitoramento da Administradora de Estradas Bolivianas (ABC) mostrava apenas 12 pontos ainda interditados.
O recuo das barreiras ocorre sob um duplo movimento do presidente direitista Rodrigo Paz, que assumiu o poder há apenas sete meses, encerrando duas décadas de gestões de esquerda. Pressionado, Paz costurou um acordo temporário com a Central Operária da Bolívia (COB) na sexta-feira, dia 19. No dia seguinte, adotou uma linha dura ao decretar o estado de exceção. A medida foi chancelada pelo Parlamento na madrugada de domingo.
Com o aval parlamentar, o governo agora tem amparo legal para decretar toque de recolher e convocar as Forças Armadas para liberar as vias. Trata-se do ápice de uma crise que se arrasta há 50 dias, motivada por críticas a medidas consideradas neoliberais e por uma controversa lei de terras aprovada no início do ano.
A exaustão do protesto
Bloquear rodovias é um método de resistência histórica na Bolívia, que remonta ao período colonial, lembra Alina Ribeiro, pesquisadora do Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Cebrap e doutoranda em ciência política na USP. Mas o custo humano é altíssimo. O desabastecimento severo de comida e remédios nas cidades acabou gerando um desgaste profundo na base dos manifestantes.
“As mobilizações custaram algumas vidas e paralisaram as cidades”, analisa Alina. Para ela, a via negociada surgiu como uma saída lógica para ambas as partes, mesmo que a principal exigência das ruas — a renúncia de Rodrigo Paz — continue distante.
O acordo de 90 dias selado com a COB funciona como um balão de ensaio. Sob a liderança de Mario Argollo, a principal central sindical do país aceitou suspender os protestos em troca de garantias pesadas. O governo se comprometeu a não criminalizar as manifestações, suspender a perseguição a líderes sociais, criar uma comissão para libertar presos e manter estatais estratégicas sob controle público, sem privatizações. Paz comemorou o pacto nas redes sociais, prometendo fortalecer a mineração estatal por meio da COMIBOL.
Rachas e acusações de golpe
Apesar do alívio temporário, a retórica oficial permanece hostil. Ao decretar o estado de exceção, Rodrigo Paz acusou os manifestantes de promoverem uma tentativa de golpe financiada pelo narcoterrorismo — uma tese alinhada à narrativa de Washington. O governo também aponta o ex-presidente Evo Morales como o mentor intelectual do caos.
Morales nega a acusação e se diz apenas um espectador de uma revolta popular genuína. A fragmentação do movimento, no entanto, é real. Organizações como a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas “Bartolina Sisa” rejeitam o acordo.
“Nossa luta é justa e não tem relação com Morales”, afirma a dirigente Virgínia Antiñapa, que denuncia assassinatos de manifestantes e acusa a COB de fechar acordos pelas costas do povo. Alina Ribeiro pondera que, pela própria natureza descentralizada e heterogênea das mobilizações bolivianas, uma pacificação completa e unificada é um objetivo difícil de alcançar no curto prazo.









