Limeira (SP) – A queda livre de uma altura de aproximadamente 30 metros, sem qualquer cabo de segurança conectado ao peito, selou o destino de Maria Eduarda Rodrigues, de 21 anos, no dia 13 de junho. Quase cinco meses depois, a Promotoria de Justiça de Limeira formalizou a acusação contra quatro pessoas envolvidas na tragédia ocorrida na Ponte do Esqueleto, um viaduto ferroviário desativado que servia de palco para a prática de rope jump. A denúncia, apresentada nesta terça-feira (7), aponta que a ganância e o amadorismo assumiram o risco de matar.
Três dos denunciados podem ir a júri popular por homicídio com dolo eventual, qualificado por motivo torpe e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. O trio operava o salto no momento em que a jovem foi arremessada no vazio. Segundo a acusação, os operadores utilizaram a técnica conhecida como “aviãozinho” — na qual o praticante é erguido fisicamente pelos braços e projetado para fora da estrutura. O erro, contudo, foi primário e fatal: Maria Eduarda foi lançada sem que a corda principal estivesse atada ao seu equipamento peitoral.
A quarta pessoa denunciada é a organizadora do evento. Ela responderá pelo mesmo crime de homicídio, mas sob a tese jurídica de omissão imprópria, por ostentar a condição de garantidora da segurança de todos os presentes. Contra ela pesa ainda a acusação de fraude processual. De acordo com as investigações, a mulher ordenou que a câmera GoPro usada pela vítima no momento do acidente fosse localizada e que as filmagens fossem sumariamente apagadas. O equipamento nunca foi recuperado pela polícia.
A atividade ocorria em escala quase industrial, mas sem o menor lastro técnico. Os promotores revelam que o grupo chegava a receber de 80 a 100 clientes por dia, operando uma engrenagem financeira sem estrutura formal e ignorando os manuais mais básicos de segurança de esportes de aventura. Não havia checagem dupla dos mosquetões e amarras, nem divisão clara de tarefas entre a equipe. O foco do negócio concentrava-se no faturamento rápido e na espetacularização dos saltos nas redes sociais.
O perigo iminente não era uma variável desconhecida para os organizadores. O processo aponta que falhas operacionais semelhantes já haviam ocorrido em saltos anteriores no mesmo local, mas o sinal de alerta foi ignorado. Em vez de interromper o negócio para corrigir os procedimentos de segurança, os responsáveis optaram por prosseguir com as operações comerciais normais, o que resultou no politraumatismo que tirou a vida da jovem de 21 anos.
Diante da gravidade da conduta, a Promotoria requereu à Justiça a manutenção da prisão preventiva dos três homens denunciados. Para a organizadora do evento, os promotores solicitaram a conversão da prisão temporária em preventiva, mantendo todo o grupo recluso durante a instrução criminal. Além da punição penal, o pedido inclui que o Judiciário fixe em R$ 200 mil a reparação mínima pelos danos causados.
A denúncia é assinada de forma conjunta pelos promotores de Justiça Mário Robim da Silva Júnior, Michelli Musse Jacob, João Guilherme Salve, Matheus Bulgarelli de Freitas Guimarães, Renato Fanin e André Camilo Castro Jardim, que agora aguardam a decisão do Poder Judiciário para o andamento do processo.










