Cidade do México, México – O verde e o amarelo não são as únicas marcas compartilhadas pelo Brasil e pela África do Sul. Enquanto a seleção sul-africana se prepara para os gramados mundiais, a relação entre os dois países ganha um novo contorno político e econômico, guiado por uma estratégia de fortalecimento mútuo dentro do chamado Sul Global. Essa sintonia, contudo, é apenas a ponta de um iceberg que envolve interesses de industrialização, vigilância sanitária e, sobretudo, uma postura assertiva em fóruns internacionais.
O presidente Cyril Ramaphosa, em visita a Brasília no início deste ano, deixou claro o desejo de mudança. Ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, ele apontou o descompasso das trocas comerciais, estagnadas na casa dos US$ 2,3 bilhões há quase duas décadas. Para os dois chefes de Estado, o volume é incompatível com o peso de duas das maiores economias industrializadas de seus respectivos continentes. A meta estipulada soa ambiciosa: elevar esse intercâmbio para a marca de US$ 10 bilhões, diversificando uma pauta que hoje se limita basicamente a carne, açúcar e minerais.
O terreno dessa colaboração já começa a ser preparado com acordos técnicos em áreas sensíveis. Desde o turismo até a agropecuária — com foco no controle da febre aftosa —, as nações buscam mecanismos que facilitem a integração logística e regulatória. No campo esportivo, figuras como o técnico Joel Santana, que comandou os sul-africanos, celebram a evolução técnica daquele futebol, acreditando em um desempenho consistente dos Bafana Bafana nos torneios globais.
A política externa, porém, é onde a voz dos dois países ganha maior peso. A África do Sul, com a autoridade moral de quem superou cinco décadas de um regime segregacionista, tem sido uma das vozes mais críticas em relação aos conflitos no Oriente Médio. William Gonçalves, pesquisador do INCT, observa que o passado de luta contra o apartheid dá aos sul-africanos um lugar de fala peculiar ao condenar violações humanitárias em Gaza e no Líbano. Essa postura espelha a diplomacia brasileira, que historicamente pressionou o fim da segregação em Pretória ainda nos anos 1970, chegando a congelar relações comerciais na época.
O histórico de resistência aos modelos impostos de fora une as duas nações. Hoje, o foco recai sobre a soberania e o desenvolvimento. Enquanto o Brasil promove pautas como o Fundo de Florestas Tropicais, a África do Sul mantém seu diferencial tecnológico no continente africano, sendo a única potência regional a produzir energia nuclear para fins comerciais. Mais do que apenas parceiros comerciais, os dois países tentam consolidar uma influência política que desafie a hegemonia tradicional, buscando equilibrar o crescimento interno com uma voz ativa na nova configuração geopolítica mundial.








