Cachoeiro do Itapemirim (ES) – A história do futebol é cheia de caprichos do destino, mas poucos são tão irônicos quanto a trajetória de Folarin Balogun. Na última sexta-feira, dia 12, o atacante comandou a vitória dos Estados Unidos por 4 a 1 sobre o Paraguai, em Los Angeles, pela abertura do Grupo D da Copa do Mundo de 2026. Sob o comando de Mauricio Pochettino, o camisa 20 anotou dois gols ainda no primeiro tempo e assumiu a artilharia provisória do torneio. O detalhe é que ele poderia muito bem estar defendendo outra seleção, não fosse a decisão burocrática de uma companhia aérea há mais de duas décadas.
Em julho de 2001, Florence, grávida de sete meses, tentava embarcar de volta para a Inglaterra com o marido, Ben. Impedida de voar por conta do estágio avançado da gestação, ela permaneceu em Nova York, onde Balogun nasceu no dia 3 daquele mês. O nascimento em solo norte-americano garantiu ao bebê, de pais nigerianos, a cidadania local. Poucas semanas depois, a família retornou para a Europa. Balogun cresceu em Londres, ingressou na base do Arsenal aos oito anos e construiu toda a sua formação na Inglaterra, sem nunca ter morado ou jogado profissionalmente nos Estados Unidos antes de vestir a camisa da seleção.
A ironia diante das barreiras migratórias
O sucesso de Balogun contrasta de forma quase poética com o atual cenário político do país que ele hoje representa. Em janeiro de 2025, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para extinguir o direito de cidadania por nascimento para filhos de pais em situação irregular — os chamados “bebês âncora”. Em março do mesmo ano, o governo recorreu à Suprema Corte para validar parcialmente as restrições enquanto as batalhas jurídicas continuavam nos tribunais.
Se as regras severas que o governo tenta impor estivessem em vigor em 2001, a estrela da equipe sequer seria considerada americana. No momento em que o país sedia o torneio sob críticas pelo rigor excessivo na concessão de vistos — que barrou atletas, delegações e até um árbitro da Somália —, o herói da estreia estadunidense tem como único vínculo com a nação uma certidão de nascimento obtida por puro acidente de percurso.
A ascensão de Balogun no futebol profissional aconteceu longe do território americano. Após estrear no Arsenal em 2020, o atacante passou pelo Middlesbrough antes de se destacar no Reims, da França, onde anotou 21 gols na temporada 2022-2023. O desempenho o levou ao Monaco em uma transferência de 40 milhões de euros. Em 2023, ele optou por exercer o direito conquistado no aeroporto de Nova York, decidindo atuar pela seleção dos Estados Unidos. O resultado desse acaso agora dita o ritmo da equipe na maior competição do planeta.




