Vila Velha (ES) – O encerramento da internação neonatal não marca o fim dos desafios para recém-nascidos que chegam ao mundo antes das 37 semanas de gestação. Sob a bandeira da campanha Novembro Roxo, entidades de saúde buscam alertar as famílias e o sistema de atendimento sobre a urgência de manter um acompanhamento rigoroso após a alta hospitalar. A iniciativa defende que investir no suporte pós-alta é a melhor forma de proteger o futuro de crianças que, embora pequenas no tamanho, possuem um potencial de desenvolvimento que depende diretamente desse cuidado especializado.
Denise Suguitani, diretora executiva da organização Prematuridade.com, aponta que o foco histórico voltado apenas para a sobrevivência dentro das UTIs precisa ser ampliado. A transição para casa é um momento de fragilidade onde a orientação e o acesso a especialistas tornam-se vitais. Embora o suporte adequado não anule todos os riscos, ele é o que permite identificar necessidades precoces, auxiliar na tomada de decisões das famílias e oferecer suporte personalizado para cada etapa da vida do bebê.
Os números refletem a complexidade do cenário. Entre janeiro de 2022 e junho de 2026, foram registradas mais de 75 mil internações de prematuros, sendo que a maioria absoluta exigiu cuidados intensivos. O tempo de permanência hospitalar é diretamente proporcional ao grau de prematuridade, chegando a uma média de quase 50 dias para os nascidos com menos de 28 semanas. Além disso, o risco de readmissão nos primeiros 30 dias é real, motivado principalmente por quadros de icterícia, dificuldades alimentares e complicações respiratórias.
A pediatra e neonatologista Rita Silveira, professora da Faculdade de Medicina da UFRGS, descreve a alta como um momento de sentimentos conflitantes. Se por um lado há o alívio de vencer o ambiente hospitalar, por outro surge a insegurança dos pais sobre a capacidade de lidar com as demandas de um organismo ainda em plena formação. A atenção à alimentação, ao crescimento e ao desenvolvimento neurológico deve ser encarada como uma continuidade do tratamento, respeitando as individualidades e os riscos inerentes a cada criança.
A trajetória de Alícia Vitória, hoje com nove anos, ilustra bem a necessidade dessa rede de suporte. Nascida com 27 semanas no Maranhão, ela enfrentou uma internação prolongada seguida pela descoberta de uma condição rara, a hiperplasia adrenal congênita. Sua mãe, Patrícia Raquel Dantas Silveira, relembra o choque do diagnóstico e o desafio logístico de percorrer 250 quilômetros para consultas mensais. O caso de Alícia, que exigiu acompanhamento multidisciplinar de pediatras e oftalmologistas por anos, reforça a importância de um sistema de saúde preparado para o longo prazo e não apenas para o curto período de crise neonatal.













