Brasília (DF) – Uma estrutura de vigilância privada financiada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro mantinha acesso ilícito a informações estratégicas do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e até da Interpol. O grupo, autodenominado “A Turma”, funcionava como uma milícia de coerção e espionagem para proteger os interesses de Vorcaro em meio às investigações bilionárias da Operação Compliance Zero. Os detalhes do esquema foram revelados em um relatório da PF enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso que apura fraudes envolvendo o Banco Master.
O documento, que soma 164 páginas, detalha o modus operandi de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Segundo os investigadores, Mourão recebia mensalmente R$ 1 milhão do ex-banqueiro para articular o acesso clandestino a sistemas restritos. A estratégia envolvia o uso indevido de logins funcionais de servidores públicos para extrair documentos sob sigilo. Em uma das conversas interceptadas, Vorcaro demonstra a amplitude da busca ao solicitar ao seu colaborador informações sobre todos os processos vinculados aos termos “BRB” e “Master”, recebendo como resposta uma promessa de varredura completa.
A investigação aponta que a rede de influência contava com a participação direta de agentes públicos, como o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Em fevereiro de 2024, após Vorcaro questionar o status de um inquérito, Roseno teria confirmado via áudio que a “Tropa” daria atenção especial às demandas do banqueiro. Auditorias internas realizadas pela Polícia Federal localizaram a origem de acessos indevidos em uma delegacia de Juiz de Fora, em Minas Gerais, confirmando o uso deliberado de credenciais para blindar a organização criminosa contra o avanço das autoridades.
A ousadia do grupo alcançava organismos internacionais. Prints de conversas trocadas em outubro de 2025 indicam que a estrutura acessava dados que circulavam em redes de inteligência globais. Embora a Interpol tenha esclarecido que o layout da tela reproduzida nas mensagens não pertence aos seus sistemas brasileiros, a PF trabalha com a hipótese de que o acesso tenha ocorrido por meio de bases de dados de outros países. Para os delegados responsáveis, o caminho ilícito foi uma escolha deliberada de Vorcaro, que, mesmo com meios jurídicos disponíveis para obter informações, preferiu recorrer a uma milícia privada para monitorar inquéritos.
Além da espionagem, a estrutura de Vorcaro exercia funções de intimidação física e coação. O relatório menciona planos de violência destinados a silenciar figuras estratégicas e proteger a integridade do ex-banqueiro diante do escrutínio estatal. A atuação criminosa veio à tona em um momento crítico, logo após o Banco Central liquidar o Banco Master em novembro de 2025, citando falhas graves e insolvência financeira. O caso, que também envolve suspeitas de negócios irregulares com o Banco de Brasília, resultou na prisão de Vorcaro. O “Sicário”, peça-chave do esquema, faleceu em uma tentativa de suicídio ocorrida dias após sua detenção.











