Naviraí (MS) – O Ministério da Justiça e Segurança Pública revelou nesta terça-feira, dia 4, o desdobramento de uma ofensiva contra um grupo criminoso especializado em aliciar crianças e adolescentes para comunidades virtuais de alto risco. A chamada Operação Lívia, conduzida pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul com suporte do Ciberlab, revelou um esquema de coerção psicológica que forçava menores a praticar automutilação e atos de crueldade contra animais.
O estopim para a investigação foi o suicídio de uma adolescente de 13 anos, ocorrido em 22 de julho em Naviraí, a 365 quilômetros de Campo Grande. A vítima foi induzida ao ato durante uma transmissão ao vivo no Discord que durou cerca de 45 minutos. Antes de tirar a própria vida, a jovem havia sido coagida pelos criminosos a torturar um animal doméstico, sem sucesso. Em um detalhe revelado pelas autoridades, descobriu-se que os agressores criaram uma chave PIX em nome da menina, sem conhecimento da família, para financiar a compra de lâminas utilizadas na automutilação.
A ação policial se estendeu para além de Mato Grosso do Sul, cumprindo oito mandados de busca e apreensão no Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro. O material agora sob posse das polícias civis será periciado para identificar outros envolvidos e mapear a extensão da rede criminosa. Durante os procedimentos, os investigadores conseguiram localizar e salvar uma segunda vítima, que já tinha uma transmissão agendada para o mesmo propósito fatal.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, fez um apelo direto aos pais durante a coletiva em Brasília. Ele ressaltou que a vigilância sobre o consumo digital dos filhos tornou-se uma necessidade urgente diante da gravidade dos eventos reportados pelas forças de segurança.
A condução das plataformas digitais foi duramente criticada pelo secretário Nacional de Direitos Digitais, Victor Fernandes. Segundo o governo, houve descumprimento sistemático de normas como o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), o Marco Civil da Internet e o Decreto de Proteção de Mulheres no Ambiente Digital. O Discord foi apontado por não interromper a transmissão ao vivo, não remover o conteúdo de imediato e falhar na notificação às autoridades.
O governo aponta ainda falhas críticas na verificação de idade dentro dessas redes, permitindo que menores de idade transitassem livremente por ambientes onde conteúdos de tortura e induzimento ao suicídio eram compartilhados. Como resposta, o Ministério da Justiça encaminhará um pedido de investigação contra o Discord e o Telegram à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A intenção é que os órgãos competentes apurem as responsabilidades legais sobre a omissão das plataformas no caso que resultou na morte da adolescente em Naviraí.











