O plenário do Senado tornou-se, nesta quarta-feira (1º), o palco de uma disputa central para o futuro do mercado de trabalho brasileiro. Em audiência pública, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa extinguir a jornada 6×1 enfrentou o crivo de empresários, sindicatos e governo, enquanto permanece sob análise na mesa do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), há pouco mais de um mês.
A tensão que marca a discussão reflete visões opostas sobre a economia. De um lado, entidades ligadas ao comércio, indústria e transportes argumentam que a mudança legislativa encarece a mão de obra e cria um obstáculo ao crescimento. Para esses setores, o modelo ideal seria a negociação direta entre patrão e empregado, evitando imposições estatais.
Produtividade versus bem-estar
Ivo Dall’Acqua, da Fecomércio-SP, questionou a lógica da proposta. Segundo o empresário, o foco deveria ser o aumento da produtividade nacional antes de qualquer tentativa de redistribuição. Ele sustenta que o caminho para o desenvolvimento, observado em nações desenvolvidas, passa primeiro pela criação de riqueza.
Em contrapartida, vozes do governo federal, como o ministro da Secretaria-geral da Presidência, Guilherme Boulos, tentam desmistificar o impacto financeiro da medida. Boulos traçou um paralelo com o reajuste do salário mínimo, afirmando que a economia possui resiliência suficiente para absorver o custo estimado em 7,8%. O ministro pontuou que o cenário atual de desemprego baixo na série histórica invalida previsões de crise.
Saúde mental em xeque
Para além dos números, a discussão tocou em um ponto sensível: a saúde do trabalhador. Dados alarmantes apontam que, em 2025, 4,1 milhões de brasileiros foram afastados temporariamente por problemas de saúde, um salto de 15% em relação ao ano anterior. Dores na coluna e diagnósticos de burnout e depressão lideram as estatísticas, cenário que, na visão de defensores da PEC, prova que o regime atual de descanso é insuficiente.
O ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, reforçou que a redução de carga horária para 40 horas semanais — sem perda salarial — é uma questão de repartir os ganhos econômicos das últimas quatro décadas. “Muito dinheiro na mão de poucos gera miséria. Pouco dinheiro na mão de muitos impulsiona o consumo e a dinâmica da economia”, defendeu.
Entraves e propostas alternativas
O setor empresarial, contudo, mantém as ressalvas. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, sugeriu que o debate seja postergado para depois das eleições de outubro, argumentando que o clima político contamina a análise técnica. Skaf defendeu, ainda, uma alternativa apresentada pela oposição: um contrato por hora trabalhada, que manteria a flexibilidade da escala 6×1. Por sua vez, Vander Costa, da Confederação Nacional do Transporte (CNT), propôs uma transição mais gradual para que o setor consiga absorver os custos sem colapsar.
Com a PEC prevendo atualmente 60 dias para o fim da escala 6×1 e um período de 14 meses para a transição definitiva para a jornada de 40 horas, o impasse persiste entre a necessidade de preservar a competitividade das empresas e a pressão social por mais tempo para lazer, estudos e convivência familiar.













