Lisboa, Portugal – O rastro de transações financeiras monitorado pela Polícia Federal colocou sob nova luz a relação entre o setor bancário e figuras de destaque do Congresso Nacional. Documentos sigilosos da Operação Compliance Zero, cujo teor foi divulgado nesta terça-feira (16) pelo ministro do STF André Mendonça, indicam que o banqueiro Daniel Vorcaro arcou com custos de hospedagem de alto padrão para o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e para o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
O episódio remete ao mês de junho de 2024. Registros extraídos do celular de Vorcaro mostram uma troca de mensagens com um aliado, identificado como Leo Serrano, solicitando reservas no hotel Four Seasons, em Lisboa. A estratégia de bastidores, segundo o relatório policial, incluía uma preocupação quase obsessiva com a discrição: o banqueiro teria ordenado a privatização de um espaço em frente ao hotel, medida pensada para blindar os hóspedes de olhares curiosos e garantir a total privacidade do encontro.
A fatura encontrada pela PF no e-mail de Vorcaro detalha a reserva de duas suítes júnior. O custo total pelas cinco diárias foi estimado em cerca de 3 mil euros, o equivalente a aproximadamente R$ 18 mil na cotação da época. Enquanto Ciro Nogueira aparece como um dos investigados na operação e já teve buscas autorizadas pela Corte, o presidente da Câmara, Hugo Motta, não figura formalmente entre os alvos do inquérito.
Relação de longa data
O episódio em Lisboa não seria um fato isolado. Os investigadores sustentam que a proximidade entre o senador piauiense e o banqueiro se traduziu em um padrão de viagens internacionais custeadas por Vorcaro. O dossiê elenca itinerários que incluem destinos como Paris, Nova Iorque e a estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses.
A soma desses benefícios econômicos, ignorando valores gastos com aviação privada, ultrapassa a marca de R$ 468 mil, conforme os cálculos dos peritos federais. A movimentação reforça, na visão da corporação, a existência de uma via de mão dupla entre os interesses do sistema financeiro e a agenda de representantes do Legislativo.
Questionado sobre o caso após a repercussão do documento, Hugo Motta declarou estar tranquilo. O parlamentar afirmou que sua estadia em Lisboa cumpriu uma agenda institucional, motivada por um evento jurídico organizado pelo ministro Gilmar Mendes. O senador Ciro Nogueira, por outro lado, ainda não apresentou posicionamento oficial acerca das revelações trazidas pelo relatório policial.












