Brasília (DF) – O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, compareceu à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado nesta terça-feira, 19 de novembro, para prestar esclarecimentos sobre a atuação da autoridade monetária frente aos problemas envolvendo o Banco Master. Em um clima de cobrança, o dirigente reconheceu que o órgão enfrenta restrições tecnológicas, estruturais e de pessoal, o que compromete a eficiência da fiscalização bancária no país.
O caso Banco Master e as falhas de supervisão
O debate foi aberto pelo senador Renan Calheiros, que presidia a sessão e classificou o episódio do Banco Master como um reflexo de brechas legais e até de uma possível omissão deliberada por parte da fiscalização. Segundo o parlamentar, o caso expôs fragilidades no relacionamento entre o poder público e o mercado financeiro, exigindo uma atualização urgente na legislação sobre crimes financeiros.
Galípolo explicou que o cerne do problema no Banco Master não estava apenas na emissão de CDBs com taxas elevadas, mas na destinação dos recursos captados. Para o presidente do BC, o risco crítico surge quando instituições de varejo, protegidas pelo Fundo Garantidor de Créditos, aplicam o dinheiro dos correntistas em ativos incompatíveis com essa natureza, como precatórios ou fundos de alto risco, gerando um descasamento perigoso entre o passivo e o ativo.
Investigações internas e conduta de servidores
A audiência também abordou o afastamento de dois ex-servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, após investigações da Polícia Federal apontarem que eles prestavam consultoria informal ao banqueiro Daniel Vorcaro. Galípolo classificou a situação como grave e informou que o BC conduziu auditorias e sindicâncias internas ao longo de seis meses para apurar o envolvimento de funcionários, encaminhando os resultados tanto à Controladoria-Geral da União quanto à Polícia Federal.
Ao ser questionado sobre as diversas visitas de Vorcaro à sede do Banco Central, Galípolo ressaltou que a governança da instituição confere autonomia aos diretores para gerirem suas agendas, mas reforçou que reuniões frequentes com bancos em dificuldades são comuns no cotidiano da autarquia. O dirigente garantiu que o BC identificou potenciais fraudes em um curto período e agiu prontamente, separando a responsabilidade dos gestores da preservação da instituição financeira.
Limitações operacionais e o futuro da fiscalização
Um dos pontos mais sensíveis da fala de Galípolo foi a escassez de recursos humanos. O presidente do BC revelou que a instituição perdeu cerca de 1.200 servidores na última década e projeta mais aposentadorias para 2026. Sem investimentos em tecnologia e inteligência artificial, ele alertou que o órgão poderá ser forçado a escolher quais setores supervisionar, priorizando apenas instituições de maior risco sistêmico, já que o cobertor, nas palavras dele, se tornou curto demais.
Controvérsias sobre acordos e política monetária
O senador Renan Calheiros também questionou o termo de leniência assinado com o Banco Santander na época em que o atual ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, era diretor da instituição. Galípolo defendeu a legalidade do acordo, afirmando que a decisão foi colegiada e seguiu os ritos internos da instituição, sem irregularidades na governança. O debate também tocou em denúncias sobre empréstimos concedidos pelo Banco Master que, segundo parlamentares, estariam ligados a interesses políticos e emendas parlamentares no setor de mercado de carbono.
Quanto à política monetária, o presidente do BC justificou a manutenção dos juros elevados pela necessidade de ancorar a inflação. Ele pontuou que, entre 2020 e 2025, o Banco Central falhou em cumprir a meta inflacionária em quatro dos seis anos, o que exigiu uma postura mais restritiva. Além disso, citou o aquecimento da economia e o baixo desemprego como fatores que pressionam os preços.
Desafios fiscais e reformas
Galípolo chamou atenção para a particularidade brasileira de conviver com juros reais próximos a 10% sem que isso resfrie completamente a atividade econômica. Com cerca de metade da dívida pública atrelada à Selic, ele defendeu que o país precisa de reformas estruturais para que a política monetária se torne mais eficiente. Segundo ele, apenas com essas mudanças será possível reduzir a dose do remédio sem comprometer o controle da inflação.
Para aumentar a segurança do sistema, o BC também impôs restrições às contas-bolsão, utilizadas por plataformas de comércio eletrônico, que facilitavam a lavagem de dinheiro ao agrupar recursos sem a devida identificação dos titulares. A medida reforça a exigência de individualização das contas no modelo de serviços bancários terceirizados.










