Caraguatatuba (SP) – A recente guinada de Washington na política externa para a América Latina ganhou um forte e inesperado componente doméstico brasileiro nesta semana. Após o governo norte-americano classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais, o vice-presidente Geraldo Alckmin subiu o tom contra a oposição. Durante uma agenda pública na cidade de Caraguatatuba, no litoral de São Paulo, na quinta-feira (29), Alckmin não apenas minimizou os impactos práticos da medida no combate à criminalidade local, como também a rotulou como uma tentativa deliberada de desviar a atenção de uma crise de grandes proporções.
Na avaliação de Alckmin, a repentina movimentação de congressistas conservadores e do próprio governo dos Estados Unidos serve apenas como uma espécie de biombo político para proteger aliados e familiares do ex-presidente de investigações financeiras pesadas. O vice-presidente criticou a postura do clã Bolsonaro de atuar para abafar o caso envolvendo o Banco Master, apontado por ele como o maior escândalo recente de sonegação tributária e corrupção no país. Em tom de forte discordância, Alckmin alertou que tal manobra externa não resultará em nada de positivo na segurança cotidiana da população brasileira, correndo o risco de fragilizar ainda mais a atividade econômica.
A cronologia dos fatos reforça o cruzamento entre as políticas de Washington e de Brasília. O anúncio oficial da nova classificação de terrorismo pelo governo norte-americano ocorreu na noite de quinta-feira (28). A medida acabou coincidindo de forma oportuna com as agendas internacionais que o senador Flávio Bolsonaro cumpria nos Estados Unidos. O parlamentar, pré-candidato à Presidência da República, havia se reunido na terça-feira (26) com o atual secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Um dia antes do encontro, na segunda-feira, Flávio e o irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, estiveram com o próprio presidente Donald Trump dentro da Casa Branca.
As investigações financeiras paralelas que incomodam o grupo envolvem o vazamento de áudios diretos de Flávio Bolsonaro destinados a Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Nos diálogos expostos, o senador pedia repasses em dinheiro sob a justificativa de financiar os custos de produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. As tratativas apontam que o banqueiro concordou em destinar um total de R$ 134 milhões à obra cinematográfica da família, valor do qual ao menos R$ 61 milhões foram liberados de fato.
A projeção de força e os riscos para o continente
A nova classificação imposta pela Casa Branca faz parte de um redesenho agressivo da estratégia norte-americana de defesa contra o que define por “narcoterrorismo” na América Latina. Essa postura militarista já se traduziu, nos últimos meses, em bombardeios diretos de forças militares dos Estados Unidos contra navios na região do Caribe, sob pretexto antiterrorismo e fora de sua jurisdição nacional. O ápice dessa ofensiva no hemisfério ocorreu no início do ano, com a invasão do território da Venezuela que culminou diretamente com a deposição e com a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Diante deste cenário, mesmo com reflexos diretos ainda incertos nas fronteiras brasileiras, a possibilidade de operações estrangeiras passa a figurar como um risco real no horizonte político.













