Brasília (DF) – A médica cubana Aleida Guevara, filha de um dos maiores ícones da Revolução de 1959, Ernesto Che Guevara, enxerga um cenário de ameaça constante sobre a ilha. Durante sua recente passagem pelo Brasil, onde participou do 4º encontro do Movimento dos Pequenos Agricultores, ela declarou que existe um temor latente entre os cubanos de que os Estados Unidos possam promover uma invasão militar a qualquer momento. Segundo a médica, o comportamento do governo americano, especialmente sob a gestão de Donald Trump, é imprevisível e perigoso.
Aleida não esconde a preocupação com a postura de Washington. Para ela, a imprevisibilidade do atual momento político internacional torna qualquer análise sobre as intenções americanas um exercício de incerteza. A médica enfatizou que, embora o povo cubano não seja ingênuo, a sensação de vulnerabilidade persiste diante de um vizinho com histórico de hostilidade. Ela citou Fidel Castro para ilustrar a resistência do país, reforçando que a injustiça tende a tremer diante de uma nação consciente e decidida a defender sua soberania.
Impacto do bloqueio econômico
A crise enfrentada por Cuba não é apenas militar, mas econômica e estrutural. O endurecimento das sanções impostas pelos Estados Unidos, que perduram por mais de seis décadas, tem asfixiado a economia local. Aleida detalhou as dificuldades práticas do cotidiano na ilha, que chegou a passar três meses sem receber carregamentos de petróleo. Sem combustível, a infraestrutura básica entra em colapso, resultando em racionamento de energia elétrica severo e ameaçando a conservação de alimentos essenciais para a população.
Apesar de o bloqueio buscar, teoricamente, incitar a população contra o governo, a médica observa um efeito reverso. Ela argumenta que a maioria dos cubanos possui clareza sobre quem é o responsável pelas privações que enfrentam. Mesmo setores que anteriormente nutriam esperanças em mudanças políticas via intervenção externa, como parte da comunidade em Miami, começaram a reavaliar suas posições ao perceber que as sanções atingem diretamente seus próprios familiares dentro de Cuba, privando-os de remédios e insumos básicos.
Solidariedade e o papel da educação
Ao ser questionada sobre como Cuba resiste a esse cerco, Aleida aponta para a educação e a consciência social. Citando José Martí, afirmou que somente um povo culto pode ser livre, pois a educação é a principal ferramenta contra a manipulação. Ela estabelece paralelos com outras regiões, como Porto Rico, mencionando a resposta negligente de Trump após desastres naturais, e o Haiti, que sofre com o isolamento desde que conquistou sua independência. Para ela, o bloqueio a Cuba serve como um aviso a outras nações: o medo de que o modelo socialista prospere e se torne um exemplo para o mundo.
A solidariedade internacional tem sido um pilar de sobrevivência. Aleida destacou a importância da Escola Latino-Americana de Medicina, que formou milhares de médicos gratuitamente, criando laços de apoio que se traduzem em doações de medicamentos e mantimentos. Governos, por outro lado, são vistos por ela como entidades voláteis, mas ela ressaltou a postura do México, que mantém o envio de alimentos, e a ajuda vinda de países como Rússia e China, que têm auxiliado na manutenção do abastecimento energético e no alívio de dívidas.
Memória e legado familiar
Crescer como filha de Che Guevara em um país que ele ajudou a transformar trouxe a Aleida uma vivência singular. Ela ressalta que sua mãe, Aleida March, foi fundamental em sua formação, garantindo que os filhos não recebessem privilégios em comparação às outras famílias cubanas. A disciplina e a ética de trabalho foram pilares herdados, mantendo a conexão com o povo como uma prioridade. Mesmo sem o convívio direto com o pai, a médica sente sua presença viva na ilha, especialmente através da admiração que as novas gerações ainda nutrem por ele.
Ao encerrar sua passagem pelo Brasil, Aleida reforçou que sua prioridade absoluta é retornar a Cuba. O compromisso com seu povo e o temor de uma escalada na agressão externa a impedem de permanecer longe por muito tempo. A médica se despede com a convicção de que, apesar das dificuldades econômicas extremas e das ameaças de potências estrangeiras, o projeto iniciado em 1959 permanece como um farol de dignidade humana para muitos movimentos sociais ao redor do globo.









