Rio de Janeiro (RJ) – O som das atividades ecoa pelos salões da Fundição Progresso, a poucos metros dos Arcos da Lapa, neste sábado. Não se trata de uma programação comum. Dezenas de jovens vindos de periferias e comunidades vulneráveis ocupam o espaço para estruturar o que chamam de Declaração das Juventudes. O texto será entregue a autoridades nacionais e apresentado durante a Conferência de Águas das Nações Unidas, marcada para ocorrer entre os dias 2 e 4 de dezembro nos Emirados Árabes Unidos.
A iniciativa, promovida pela organização Águas Resilientes, coloca frente a frente os impactos climáticos e o abismo que separa a promessa legal da realidade brasileira. A meta de universalização estipulada pelo Marco Legal do Saneamento mira o ano de 2033 com índices de 99% de água tratada e 90% de coleta e tratamento de esgoto. Contudo, os números atuais revelam um caminho longo: o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico mostra que 84,1% dos brasileiros possuem acesso à rede de abastecimento, enquanto pouco mais da metade do esgoto gerado no país recebe algum tratamento.
O esforço para virar o jogo é financeiramente exigente. Segundo estimativas técnicas, o Brasil precisa aplicar anualmente R$ 114 bilhões para cumprir os prazos. Para a urbanista Andrea Pulici, no entanto, a conta exige um olhar que vá além da engenharia financeira. A questão central, diz ela, reside no chamado custo da inação. Quando uma família é privada de saneamento básico, o impacto reflete na saúde, no rendimento escolar e na cidadania — prejuízos difíceis de quantificar, mas que cobram uma conta social incalculável.
Dentro da sala de debates, a percepção é de urgência. Para os organizadores, como Erleyvaldo Bispo, o debate precisa ser tirado da sombra. Atualmente, 2,2 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso seguro à água; no Brasil, esse número gira em torno de 35 milhões de cidadãos. Trazer a juventude do Sul Global para o centro das decisões multilaterais tornou-se uma estratégia de sobrevivência e não apenas de representatividade.
A ativista Johari Silva sintetiza o sentimento de quem pauta o tema por experiência própria. Para ela, discutir água é, antes de tudo, garantir condições mínimas de dignidade e saúde, direitos que falham onde a infraestrutura não chega. Integrar vozes de comunidades tradicionais, ribeirinhas e periféricas à diplomacia climática é visto como o caminho para preencher a lacuna na tomada de decisões.
Representando o olhar da política pública, a deputada estadual Dani Monteiro defende que a governança do setor só alcançará eficácia se for construída com a participação real de quem ocupa o território. Ao encerrar o dia com a carta finalizada, o grupo espera que o documento sirva como uma voz capaz de furar as bolhas tradicionais e forçar o debate sobre o futuro que se quer construir, antes que a escassez se torne o único horizonte possível.












