Brejetuba (ES) – A cena é cotidiana: no caixa do supermercado ou da farmácia, o atendente oferece o parcelamento em até três vezes sem juros. O que deveria ser uma compra pontual transforma-se em dívida recorrente. Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, observa que o crediário deixou de ser ferramenta para bens duráveis e virou muleta para custear o orçamento mensal, desorganizando as finanças pessoais.
Essa facilidade de acesso ao crédito alimenta o que especialistas chamam de ansiedade de consumo. Katherine Hennings, da FGV, aponta que o brasileiro tenta antecipar desejos estimulados por propagandas e influenciadores digitais. O problema é que, enquanto o marketing brilha, a matemática básica é esquecida: pouca gente para para calcular o custo real desses juros antes de confirmar a transação.
Muitos consumidores cometem o erro crasso de tratar o limite do cartão como extensão da própria renda. Isabela Tavares, da consultoria Tendências, é direta: quem ganha R$ 5 mil e possui um limite de R$ 5 mil não tem R$ 10 mil para gastar. Essa confusão mental empurra famílias para o cheque especial e o rotativo, modalidades com os juros mais agressivos do mercado financeiro.
O cenário é crítico. Segundo a Serasa Experian, o país soma 81,7 milhões de inadimplentes, sendo que a maioria recebe até dois salários mínimos. Sem acesso a linhas mais baratas, como o consignado, esse público acaba refém de dívidas impagáveis. Programas como o Desenrola funcionam como um respiro emergencial, mas, como alerta o planejador financeiro Carlos Castro, o desafio real é estrutural: frear o endividamento antes que ele se torne um ciclo infinito.











